Por Marco Severini — Em um movimento que altera a geografia simbólica do poder global, o presidente e CEO do Fórum Econômico Mundial, Borge Brende, apresentou sua renúncia irrevogável após emergirem documentos que revelam seus contatos com o predador sexual americano Jeffrey Epstein. A decisão ocorre num momento sensível, quando as instituições responsáveis por mediar a governança global se veem avaliadas não apenas por suas agendas, mas pela integridade de seus dirigentes.
Segundo nota oficial divulgada pela própria instituição com sede em Genebra, a direção executiva foi transferida interinamente para o diretor-executivo, Alois Zwinggi. Os copresidentes do Conselho, o industrial farmacêutico suíço André Hoffmann e o presidente da BlackRock, Larry Fink, declararam que o conselho supervisionará a transição e dará início ao processo para nomear um sucessor permanente.
A demissão surge após uma investigação interna do Fórum sobre a relação de Brende com Epstein. Documentos tornados públicos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos apontam que houve ao menos três jantares de trabalho entre os dois e troca de mensagens. Brende, ex-ministro das Relações Exteriores da Noruega, afirmou ter sido “completamente alheio” às atividades criminosas anteriores de Epstein, ao mesmo tempo em que reconheceu que deveria ter procurado informações adicionais a respeito de seu interlocutor.
Os copresidentes Hoffmann e Fink informaram que a investigação interna não identificou “motivos de preocupação adicionais além do já revelado”. O primeiro encontro reconhecido entre Brende e Epstein remonta a 2018 — dez anos após a condenação de Epstein por prostituição envolvendo menores — e teria ocorrido por convite do ex-vice-primeiro-ministro norueguês Terje Rod-Larsen.
Na sua mensagem de despedida, Brende destacou que, durante sua gestão, o Fórum registrou um número recorde de parceiros e uma colaboração inédita com líderes governamentais globais. “Acredito que este é o momento certo para que o Fórum continue seu trabalho importante sem distrações”, declarou o agora ex-dirigente.
Como analista que acompanha a tectônica de poder nas arenas multilaterais, interpreto esta saída como um movimento decisivo no tabuleiro da diplomacia internacional: não apenas uma resposta a questões de conformidade pessoal, mas também uma tentativa de preservar os alicerces institucionais do Fórum de Davos. A renúncia busca limitar o dano à credibilidade da organização e permitir que o processo de sucessão ocorra com relativa normalidade, evitando uma crise prolongada durante uma fase em que a governança global enfrenta desafios simultâneos — econômicos, climáticos e geopolíticos.
Os desdobramentos imediatos dependerão da habilidade do conselho em selecionar uma liderança que restabeleça confiança entre governos, corporações e a sociedade civil. O episódio reforça uma lição de Realpolitik contemporânea: nas grandes salas onde se desenham estratégias globais, o capital simbólico e a legitimidade pessoal permanecem tão vitais quanto os acordos e parcerias assinados à mesa.
O caso seguirá sob observação, especialmente se novas comunicações ou reuniões forem tornadas públicas. Enquanto isso, a transição para Alois Zwinggi e a abertura do processo de sucessão definirão os próximos lances deste tabuleiro institucional.






















