Em audiência perante a Comissão de Economia do Parlamento Europeu, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, apresentou um diagnóstico claro sobre a trajetória recente dos preços na zona do euro e as perspectivas para o futuro. Segundo Lagarde, o período excepcionalmente adverso enfrentado nos últimos anos — marcado por pressões de preços elevadas que afetaram famílias e empresas — está sendo revertido graças à ação enérgica da BCE.
Lagarde recordou que a inflação atingiu um pico de 10,6% em outubro de 2022. Desde então, houve uma correção significativa: na segunda metade de 2025 a inflação oscilou em torno de 2% e, em janeiro de 2026, situou-se em 1,7%. A presidente atribuiu esse resultado, em grande medida, às decisões firmes de política monetária tomadas pelo Banco, que tiveram papel central no processo de descompressão dos preços.
Entre os motores dessa descompressão, Lagarde destacou a queda dos preços da energia e dos serviços. A inflação subjacente — que exclui energia e alimentos — recuou para 2,2%, ante 2,3% em dezembro. Este indicador é particularmente relevante por sinalizar pressões mais persistentes na economia real.
Um ponto saliente da intervenção foi a evolução dos salários reais. Com a inflação abaixo do crescimento dos salários nominais, os salários corrigidos pela inflação não apenas se recuperaram, como passaram a situar-se, em média, acima dos níveis observados no início de 2021. Lagarde observou que o crescimento salarial nominal segue elevado, mas vem se desacelerando de forma gradual, e a previsão é que se estabilize em torno de 3% no médio prazo.
Diante desse quadro, a BCE mantém a expectativa de que a inflação convergirá para o objetivo de 2% no médio prazo. Em linha com essa visão, o Banco decidiu deixar inalteradas as três principais taxas de juros na reunião de política monetária realizada no início do mês.
Lagarde também abordou a conhecida divergência entre inflação medida e inflação percebida pela população. Pesquisas indicam que muitos cidadãos continuam a sentir uma aceleração dos preços maior do que a mostrada pelos dados oficiais. A presidente sublinhou que essa lacuna não é um fenômeno novo nem restrito à zona do euro: trata-se de um padrão global com efeitos materiais sobre o comportamento econômico, as expectativas inflacionárias e a confiança nas instituições.
Explicou-se que itens comprados com frequência, especialmente os preços dos alimentos, pesam mais na percepção das pessoas. Desde 2022, a inflação dos alimentos ficou acima da média geral, embora a projeção do Banco seja de queda gradual desse componente, até se estabilizar ligeiramente acima de 2% no médio prazo.
Como estrategista econômica, interpreto a mensagem de Lagarde como um ajuste fino do motor da política monetária: a equipe do BCE está calibrando juros e comunicação para ancorar expectativas, sem provocar sobressaltos desnecessários ao crescimento. A redução da inflação veio com recuperação dos salários reais, o que melhora o poder de compra; contudo, a trajetória futura dependerá da evolução dos mercados de energia, choques geopolíticos e do equilíbrio entre âncora monetária e estímulos fiscais — verdadeiros componentes do design de políticas que funcionam como aceleração ou freios na dinâmica macro.
Concluo ressaltando que a manutenção das taxas por enquanto é uma postura prudente: preserva a capacidade de resposta do Banco caso novos choques elevem a inflação, enquanto permite avaliar se a desaceleração salarial prossegue conforme o esperado. A comunicação contínua e transparente será essencial para reduzir a distância entre inflação percebida e inflação observada, elemento crucial para ancorar expectativas e garantir uma calibragem eficiente da política.






















