Por Marco Severini — Em uma sessão fechada da Comissão de Vigilância da Câmara, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton prestou depoimento sobre sua eventual ligação com o financista condenado Jeffrey Epstein. Na residência do casal, em Chappaqua, a ex-first lady sustentou com voz calmo-cerena que nunca encontrou pessoalmente Epstein, que jamais subiu em seu avião nem esteve em sua casa, e que desconhecia a natureza dos crimes atribuídos ao magnata.
“Nunca conheci Epstein, não fazia ideia dos seus crimes”, disse Hillary Clinton em trecho de sua declaração de abertura, ao mesmo tempo em que lançou um desafio institucional: “Investigam antes é o senhor Trump, convoquem-no a depor sob juramento”. O teor acusatório e as perguntas finais da sua exposição — “O que foi ocultado? Quem está sendo protegido? Por que houve encobrimento?” — funcionam como uma espécie de aposta estratégica no tabuleiro público do processo.
O depoimento de Hillary foi gravado e realizado a portas fechadas sob a presidência republicana do congressista James Comer. O ex-presidente Bill Clinton seguirá em sessão videogravada marcada para o dia seguinte; as transcrições devem ser publicadas posteriormente. A mobilização visa esclarecer omissões nos arquivos conhecidos como Arquivos Epstein, um vasto conjunto de documentos liberados parcialmente desde 2025 — entre logs de voos, e-mails e relatórios de investigação — que lançam luz sobre o círculo de influências do falecido multimilionário.
Os materiais divulgados revelam laços documentados entre o ex-presidente Bill Clinton e Epstein, incluindo um número estimado entre 16 e 26 voos no apelidado “Lolita Express” entre 2001 e 2003, em missões apresentadas como humanitárias na África e na Ásia. Em alguns desses voos, segundo os registros, estaria presente Ghislaine Maxwell — posteriormente condenada por tráfico sexual de menores — e há menções a ao menos cinco ocasiões nas quais o serviço secreto não acompanhou o ex-presidente.
As conexões com a Casa Branca nos anos 1990, doações à Clinton Foundation e fotografias com Epstein figuram entre os itens liberados no último grande pacote de documentos. Hillary aparece de forma mais indireta, citada via comunicações de assessoria, e reafirma que não houve encontros pessoais. Formalmente, não há acusações criminais contra os Clinton; o foco da Comissão é apurar eventuais omissões e responsabilidades institucionais na gestão dos arquivos.
Após meses de resistência, os Clinton aceitaram negociar os termos das deposições para evitar sanções congressuais. A movimentação política entre as lideranças partidárias também se mostra complexa: nove dos 21 democratas da comissão apoiaram os republicanos ao avançar as acusações contra Bill Clinton, defendendo plena transparência; três democratas apoiaram avanço semelhante em relação a Hillary.
Reportagens do New York Times e da CNN, com base em apurações do National Public Radio, apontam lacunas nos arquivos tornados públicos — faltariam dezenas de páginas, possivelmente até cerca de noventa, contendo interrogatórios cruciais. Entre esses trechos ausentes estariam depoimentos relativos a uma mulher que acusa o então presidente Donald Trump de agressão sexual quando tinha 13 anos, segundo as referências preliminares dos documentos.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro institucional norte-americano: a abertura forçada dos arquivos e os depoimentos públicos servem tanto para esclarecer pontos de fato quanto para redesenhar linhas de responsabilidade política. O desafio da Comissão é transformar um amontoado de registros e lacunas — alicerces frágeis da diplomacia investigativa — em narrativas verificáveis, com consequências tanto legais quanto eleitorais.
Como sempre, a tectônica de poder transborda o espaço jurídico e entra na esfera simbólica: convocar figuras de tão alto perfil para depor é também um movimento de posicionamento, uma tentativa de reordenar influências e responsabilidades numa arena em que documentos, memórias e omissões duelam como peças em um jogo de xadrez institucional.






















