Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A giunta de Roma Capitale deu o primeiro aval formal ao projeto do novo estádio da AS Roma. A deliberação aprovada abre a etapa seguinte do procedimento administrativo: o texto seguirá agora às comissões competentes e, nas próximas semanas, será submetido ao voto definitivo do conselho municipal para a confirmação do interesse público do empreendimento.
Segundo o projeto aprovado, a arena terá capacidade total de 60.605 lugares, com uma das curvas mais volumosas da Europa — prevista para abrigar cerca de 23.000 torcedores. O investimento declarado pelo clube soma 1.047,79 milhões de euros, valor que representa uma aposta de grande escala da propriedade na infraestrutura esportiva e urbanística da cidade.
O decurso formal — da delibera ao exame em comissões e ao voto do conselho — é ritual administrativo conhecido em Roma, onde projetos de grande impacto urbano enfrentam não só trâmites técnicos, mas leituras políticas e culturais. A expressão “interesse público” é, aqui, a chave que transforma uma iniciativa privada num projeto com implicações coletivas: mobilidade, segurança, usos do solo, impacto comercial e expectativas de emprego e regeneração local.
Como analista, interessa-me mais do que o número de assentos: a decisão do Campidoglio marca um momento em que o futebol volta a disputar espaço na agenda urbana romana. Estádios modernos não são apenas recipientes para espetáculos esportivos; são projetados como equipamentos multifuncionais — com zonas comerciais, espaços culturais e serviços — que alteram microeconomias e redes de circulação. Essa escala de investimento coloca a questão do balanço entre benefício público prometido e os custos reais de transformação do território.
Do ponto de vista simbólico, a curva de 23 mil lugares é um manifesto: é a intenção de concentrar identidade torcedora e intensidade atmosférica em uma estrutura singular. Torcedores e cidade reinterpretam, em conjunto, o significado do espaço. Há um aspecto de memória coletiva em jogo — como as gerações vão se lembrar desse estádio? Será ele palco de uma continuidade de tradições ou marca de uma nova era de espetacularização do futebol?
Politicamente, o aval da giunta não encerra debates previsíveis. Esperam-se contestações sobre impacto viário, compensações urbanísticas e condições contratuais entre a administração municipal e o clube. Projetos desta natureza costumam ser alvo de avaliações técnicas profundas: estudos de impacto ambiental, planos de mobilidade e garantias financeiras. O calendário legislativo definirá se a proposta será consolidada sem alterações ou sujeita a condicionantes.
Além disso, o investimento anunciado — acima de 1 bilhão de euros se convertido em termos correntes — levanta a discussão sobre fontes de financiamento, cronograma de execução e responsabilidades futuras pela manutenção e gestão do complexo.
A próxima etapa formal é clara: comissões técnicas analisarão detalhes urbanísticos e jurídicos; o conselho municipal votará a confirmação do interesse público. Nas próximas semanas, acompanharei os pareceres e as eventuais emendas que surgirem. A decisão final definirá um novo capítulo para a cidade e para a AS Roma, que busca, por meio do novo estádio, reformatar sua relação com a cidade e com uma torcida que, em termos de massa e símbolo, será chamada a ocupar uma das curvas mais expressivas do continente.
Enquanto isso, permanece a pergunta que sempre acompanha grandes obras esportivas: qual será o legado real, para além das fachadas e das cifras?






















