Por Marco Severini — Em um movimento decisivo no tabuleiro da opinião pública, a figura discreta e diligente da Princesa Anne emerge como a mais confiável entre os membros da família real britânica num momento em que a instituição enfrenta abalos reputacionais provocados pelo escândalo Epstein e o recente episódio envolvendo o príncipe Andrew.
Relatos e análises de especialistas — em particular as observações do comentarista real Richard Fitzwilliams — colocam a Princesa Anne, de 75 anos, como a “carta vencedora” do Palácio. A avaliação não é fingida admiração popular: ela decorre de uma reputação de fiabilidade, sentido do dever e de um perfil de trabalho que, segundo fontes, supera o de praticamente qualquer outro membro da família.
Fitzwilliams chama atenção para dois traços estratégicos que tornam Anne valiosa para a estabilidade institucional: primeiro, sua capacidade de suportar um elevado volume de compromissos públicos sem ceder ao “circo mediático” que contamina figuras mais expostas; segundo, sua aptidão para oferecer conselhos práticos ao rei, em especial num momento em que, segundo relatos, o rei Charles teria sido pressionado por seu filho William em relação à gestão da crise.
Como analista de relações internacionais, vejo nesse quadro um padrão clássico de consolidação: quando as estruturas institucionais vacilam, os alicerces que inspiram confiança e previsibilidade tornam-se cruciais. A presença de Anne funciona como um contrapeso às turbulências, reforçando o capital moral da instituição e amortecendo efeitos negativos sobre o apoio popular.
Há também um aspecto técnico de sucessão que alimenta o debate público. Atualmente, a Princesa Anne ocupa o 18º lugar na linha de sucessão ao trono — uma posição definida pelas regras que regem a sucessão, as quais, conforme observou Fitzwilliams, “infelizmente não foram aplicadas retroativamente” após as reformulações de 2013. Se as mudanças tivessem sido retroativas, Anne estaria situada em uma posição muito mais próxima do núcleo dinástico (quinta, atrás do príncipe William e sua família), algo que, conforme o comentador, provavelmente reforçaria a percepção pública de coerência institucional.
O caso do príncipe Andrew — cuja detenção/entrevista de longa duração atraiu ampla atenção e agravou a crise — colocou sobre a mesa a necessidade de uma reestruturação simbólica e prática da família real. Com a possibilidade de Andrew reduzir seu papel público, surge o espaço para reordenamentos sutis: não apenas em termos de protocolo, mas sobretudo em termos de confiança pública e eficácia institucional.
Minha posição, como observador da “tectônica de poder” europeia, é que a monarquia, enquanto dispositivo de estabilidade, depende tanto de atos formais quanto de figuras que incorporem previsibilidade e dever. A Princesa Anne reúne esses atributos. Sua atuação discreta, porém consistente, e sua resistência ao espetáculo midiático a tornam um recurso estratégico para preservar os alicerces frágeis da diplomacia doméstica.
Em suma, a crise expõe fissuras. Mas também revela peças no tabuleiro que podem ser mobilizadas para conter a propagação do dano. A capacidade da família real de ouvir vozes divergentes — e de aplicar conselhos práticos — determinará se essas peças serão suficientes para restabelecer a confiança pública necessária à longevidade da instituição.






















