Na terceira noite do Festival, quinta-feira, 26 de fevereiro, o Teatro Ariston se transformou num encontro simbólico entre duas gerações e duas culturas: Alicia Keys e Eros Ramazzotti subiram ao palco para uma apresentação que mistura memória íntima e celebração pública. Em uma anteprima mundial, os artistas realizaram o primeiro dueto ao vivo após gravarem juntos em italiano e espanhol a canção l’Aurora, presente no mais recente álbum de Ramazzotti, Una Storia Importante.
O momento teve o sabor de um retorno às raízes: Alicia, cuja ascendência remonta a avós sicilianos, trouxe ao festival uma presença que dialoga com a diáspora e com a noção de identidade cultural transnacional. Ramazzotti, por sua vez, celebra os 40 anos desde a vitória histórica em Sanremo com Adesso Tu, compondo uma espécie de espelho do nosso tempo onde memória pessoal e narrativa pública se entrelaçam.
No papel de co-apresentadores da noite, a top model russa Irina Shayk e o ator e imitador Ubaldo Pantani apareceram em cena — Pantani interpretando uma de suas caricaturas mais populares, Lapo Elkann. A presença desses nomes amplia o roteiro oculto do festival: Sanremo não é apenas competição musical, é um palco para performance social e representação midiática.
Além das grandes estrelas, subiram ao palco os outros 15 Big em competição, avaliados pelo público via Televoto (50%) e pela Giuria delle Radio (50%). Em ordem alfabética, os concorrentes foram: Arisa, Eddie Brock, Francesco Renga, Leo Gassmann, Luchè, Malika Ayane, Mara Sattei, Maria Antonietta e Colombre, Michele Bravi, Raf, Sayf, Sal Da Vinci, Samurai Jay, Serena Brancale e Tredici Pietro. Ao final das votações, a comissão divulgou as cinco primeiras posições — anunciadas sem hierarquia definida — um recurso que mantém a tensão narrativa intacta e alimenta o jogo simbólico do festival.
Na categoria das Nuove Proposte, guiadas por Gianluca Gazzoli, dois finalistas disputaram o prêmio, com o resultado definido por uma soma de votos: Televoto (34%), Giuria della Sala Stampa, Tv e Web (33%) e Giuria delle Radio (33%). O vencedor da noite será proclamado com base nessa combinação, reafirmando a lógica de múltiplas vozes que Sanremo assume como tribunal cultural.
Enquanto o Ariston concentrava luzes e olhares, a Piazza Colombo foi palco de outro capítulo do festival: a banda The Kolors apresentou-se ao público, reforçando o ecossistema que circunda o evento — shows, encontros e a circulação de sentido que transcende a mera competição musical.
Como analista cultural, observo Sanremo como um filme em que cada número é uma cena pensada para refletir e instigar. A chegada de Alicia Keys ao festival italiano, aliada à trajetória de Ramazzotti, compõe um refrão que atravessa fronteiras: é a semiótica do viral aplicada ao patrimônio emocional europeu, um reframe da realidade onde passado e presente dialogam no mesmo compasso.






















