Por Chiara Lombardi — Em um festival que funciona como um espelho do nosso tempo, a segunda noite de Sanremo 2026 mostrou números robustos, ainda que em queda frente ao ano anterior, e trouxe um ranking provisório que já desenha tendências sonoras e narrativas para a semana. A leitura dos dados de audiência revela mais do que cifras: revela o pulso de uma audiência que segue fiel ao rito televisivo mas atravessa novos hábitos de consumo.
Segundo os dados oficiais, a segunda noite do Festival apresentada por Carlo Conti registrou, em termos de audiência total, uma média de 9.053.000 telespectadores, correspondendo a 59,5% de share. Em comparação com a noite de abertura, houve um avanço de share — a primeira noite havia alcançado 58% com 9,6 milhões de espectadores —, ainda que o resultado de 2026 fique aquém da segunda noite de 2025, quando a média foi de 11,8 milhões e 64,6% de share.
Ao decompor o programa em blocos, a primeira parte da segunda noite (das 21h46 às 23h34) atraiu 11.531.000 telespectadores, com 58,2% de share. A segunda parte (das 23h39 à 1h10) teve 5.947.000 espectadores e alcançou 62,7% de share. Para efeito de comparação, em 2025 a primeira parte fora vista por 14.900.000 pessoas (63,6%) e a segunda por 7.600.000 (67,2%). Esses recortes temporais não são meros números técnicos: mapeiam o comportamento de uma audiência que acompanha o festival como se segue um roteiro, com picos e vales que dizem respeito a entretenimento, expectativa e capacidade de retenção.
No palco estiveram apenas 15 dos 30 artistas concorrentes — um mecanismo que intensifica a competição e concentra a atenção. A classificação provisória da segunda noite, divulgada sem revelar as posições exatas dos cinco primeiros, resulta da combinação do voto da Júri das Rádios e do televoto. Os cinco nomes destacados foram: Tommaso Paradiso, Lda & Aka 7Even, Nayt, Fedez & Masini e Ermal Meta. Esses artistas, em suas distintas linguagens, traçam um mapa do gosto contemporâneo: do pop pensoso à produção urbana, passando por colaborações que reescrevem repertórios.
Como analista cultural, vejo nesses indicadores não apenas índices de sucesso televisivo, mas fragmentos de um roteiro oculto da sociedade: quem ocupa o palco, quem mobiliza o voto e como a audiência responde às camadas de performance e autenticidade. A ligeira queda em relação a 2025 sugere um processo de reequilíbrio — a televisão linear permanece relevante, mas enfrenta desafios de atenção em um ecossistema multiplataforma.
Nas próximas noites, será crucial observar a evolução da votação, a presença de convidados e a capacidade do festival de manter o diálogo com plataformas digitais. Enquanto isso, o Teatro Ariston continua sendo um cenário de transformação, onde canções e imagens reconfiguram memórias coletivas e alimentam conversas que ultrapassam a mera crônica de entretenimento.
Sanremo 2026 segue, assim, como um laboratório cultural: entre números de audiência e as emoções programadas do palco, o festival reflete o que somos — e o que escolhemos ouvir — nesta virada de década.






















