Irina Shayk foi anunciada como a co-condutora da terceira noite do Festival de Sanremo 2026, numa escolha que mistura glamour internacional e um curioso diálogo entre memória pessoal e espetáculo coletivo. Ao seu lado estará Ubaldo Pantani, numa das suas mais conhecidas paródias: a de Lapo Elkann. A combinação promete não apenas brilho visual, mas uma pequena encenação do que chamaria de ‘o roteiro oculto da sociedade’ — onde celebridade e representação se encontram num espelho do nosso tempo.
Em entrevistas recentes, a modelo russa traçou com simplicidade a trajetória que a trouxe das paisagens austeras de uma aldeia soviética às capas das revistas de moda. Nascida em 1986, Irina Shayk percorreu as passarelas das grandes marcas internacionais, tornou-se rosto de campanhas globais e alargou o seu percurso à sétima arte, abrindo uma via entre moda, cinema e cultura pop. A sua história, porém, mantém uma raiz visível: “Mio padre era un minatore, coltivavamo verdure per sopravvivere”, recordou na entrevista ao Corriere della Sera — uma frase que em português soa como um pequeno aforismo sobre origem e persistência.
Ela mesma brincou com a possibilidade de ser convidada a cantar: “Spero che a Sanremo non mi facciano cantare, non so ancora leggere le note“, confessou — esperança e autoironia que humanizam a figura de ícone. Traduzindo, disse que espera não ter de cantar, pois ainda não sabe ler as notas musicais. É um lembrete delicado de que o espetáculo pode acolher perfis versáteis sem exigir que sejam especialistas em todas as artes.
A juventude de Irina Shayk desenhava-se longe das luzes: uma vida simples, sem carro, com a família a caminhar até aos campos para cultivar legumes que garantissem a sobrevivência do inverno, e uma televisão em preto e branco que nem sempre funcionava. Hoje, apesar do sucesso, a modelo reafirma que o essencial é «saber quem és, recordar de onde vens e manter os pés no chão» — uma máxima que soaria bem em qualquer roteiro de coming-of-age, só que real e ainda em curso.
Do ponto de vista cultural, a presença de Irina no palco de Sanremo funciona como um pequeno reframe da tradição do festival: a estética da moda e a semiótica do estrelato atravessam a música e vice‑versa. Ao trazer uma personalidade com ligação a diferentes universos — passarelas, cinema, cobertura mediática internacional e relacionamentos de alto perfil (mencionou-se, por exemplo, o seu passado com Bradley Cooper) — o festival sinaliza uma leitura contemporânea do evento, que deixa de ser apenas competição musical para se tornar um cenário de transformação onde identidades são performadas e reposicionadas.
Em termos práticos, a sua participação deverá atrair não só o público tradicional do Teatro Ariston como também audiências internacionais curiosas pelo encontro entre moda e música italiana. E enquanto Pantani encarna a sátira elegante de Lapo Elkann, Irina oferece presença e memórias — uma tensão produtiva entre imagem e origem que convida o espectador a olhar além da superfície.
Será interessante observar como a noite se desenrola: se o festival permitirá que Irina permaneça na esfera do charme e da confidência pessoal, ou se haverá convites para performances fora do seu repertório. De qualquer modo, a sua participação reafirma uma tendência contemporânea: grandes palcos são, hoje, plataformas híbridas onde o conteúdo cultural reflete e refrata o zeitgeist.





















