Por Chiara Lombardi — Em uma edição que já promete ser leitura obrigatória do espírito do tempo, Mazzariello sobe ao palco das Nuove Proposte de Sanremo 2026 com a canção Manifestazione d’amore. O jovem cantautor salernitano, cujo nome artístico é simplesmente o sobrenome — uma escolha pragmática e honesta — chega ao Ariston após vencer a seleção Area Sanremo e completar um percurso marcado pela busca da sinceridade estética e emocional.
Na noite de quarta-feira, 25 de fevereiro, a apresentação de Mazzariello deve ser lida como um pequeno espelho: não só o reflexo de um artista em formação, mas o espelho do nosso tempo, no qual a hiperatividade cultural e a performance constante dissolvem vínculos. Em entrevista à imprensa, ele explica que Manifestazione d’amore nasceu de uma reflexão sobre a vida moderna e a urgência de resgatar relações autênticas. “Vivemos em uma sociedade hiper-performativa, onde até relaxar virou tarefa a ser cumprida”, disse o artista. A canção atua, portanto, como um alerta afetivo — um sinete que lembra que o jogo da vida é breve e que vale a pena lembrar das pessoas importantes.
Musicalmente e liricamente, a canção se apoia numa metáfora forte: um quase-acidente de carro que desperta a lucidez necessária para perceber o que se corre o risco de perder quando se é dominado pelo ritmo frenético do cotidiano. O relato pessoal ganha dimensão coletiva. “Da um ano moro sozinho em Milão e acabei por tomar como garantidos afetos e amizades. A música veio para me dizer: ‘Olha, isso não está certo'”, confidencia Mazzariello. É essa intersecção entre autobiografia e experiência compartilhada que transforma o tema em algo reconhecível ao público.
O artista encara a estreia com uma mistura de concentração e leve fascínio. “Não sei se é a calma antes da tempestade, mas estou muito focado na performance”, afirma. A pressão existe — como existe para todo jovem que pisa no Ariston —, mas ele também descreve a sensação como prazerosa: estar num “flow muito legal”, sob a tensão que alisa e afia a entrega.
O percurso de Mazzariello revela uma opção estética que tem sustentado muitos novos nomes: a escolha da sinceridade acima das fórmulas de mercado. Ele comenta que, no passado, pensava mais na canção certa para o momento certo; hoje, trabalha o que lhe soa autêntico. Essa honestidade artística, acredita, está sendo valorizada pelo público. “Parece que a escuta está se orientando para a sinceridade. O ouvinte quer que lhe falem de modo honesto — e a sinceridade pode ser contraditória”, observa, citando projetos como o de Tony Pitoni como exemplo de processos artísticos que, independentemente de agradar a todos, chegam por sua veracidade.
Escolher usar o próprio sobrenome como nome de palco é, em sua ótica, uma decisão pragmática e simbólica: o nome funciona como ancoragem, como um título simples que não pretende teatralizar o eu. Nessa opção, encontra-se uma espécie de reframe da realidade: em vez de construir uma persona, opta-se pelo documento mínimo do artista — um rótulo que privilegia o conteúdo sobre o ornamento.
Enquanto a canção se prepara para ecoar sob os holofotes de Sanremo, vale olhar para Mazzariello também como um sintoma cultural. Sua mensagem sobre a urgência de vínculos e a recusa da performatividade absoluta se alinha ao que tenho chamado de “o roteiro oculto da sociedade”: um movimento coletivo que busca revalorizar o humano diante do mercado das experiências. Nesta edição do festival, a apresentação das Nuove Proposte revela-se, assim, menos sobre projeção de fama imediata e mais sobre a semiótica do viral enfrentando a demanda por autenticidade.
Seja qual for o desfecho competitivo, a passagem de Mazzariello por Sanremo 2026 já tem um valor cultural: oferece um espaço de reflexão sobre como a música pode funcionar como um chamado à atenção, uma “manifestação” literal e simbólica do amor — e do cuidado — que nos falta.





















