Em uma virada que parece saída de um roteiro bem calibrado, Achille Lauro volta ao Festival de Sanremo, desta vez não como concorrente, mas como co-apresentador da segunda noite ao lado de Carlo Conti e Laura Pausini. A confirmação consolida o que já parecia um movimento natural: do palco competitivo ao papel de anfitrião, Lauro encarna o tipo de transformação que o entretenimento contemporâneo faz espelho do nosso tempo.
Nascido em Verona em 11 de julho de 1990, Lauro De Marinis — artisticamente conhecido como Achille Lauro — construiu uma carreira marcada por constantes reconfigurações de imagem. O nome de palco é uma justaposição entre seu prenome, Lauro, e o herói mitológico Áquiles, escolhida também para se descolar de associações ao armador homônimo. Essa assinatura simbólica anuncia desde cedo uma propensão ao reframe da própria identidade.
Na trajetória do artista, o Festival de Sanremo funciona tanto como vitrine quanto como palco ritual: Lauro já competiu quatro vezes, sendo a participação de 2025 com a canção “Incoscienti giovani” a mais recente antes deste novo papel, e a performance de 2019 com “Rolls Royce” responsável por alargar seu público. Seu repertório mistura provocação estética e canção popular, criando o roteiro oculto de uma carreira que se lê tanto na música quanto na performance.
As polêmicas acompanharam Lauro: em 2022, durante a apresentação de “Domenica”, ele encenou um gesto inspirado no batismo cristão — ato que gerou controvérsia e críticas de setores do clero. Em 2020, o beijo no palco entre Achille e o produtor Boss Doms reacendeu debates sobre imagem, afeto e exposição pública. Mais recentemente, o single “Amore Disperato” tornou-se sucesso radiofônico, certificado como single de platina e permanecendo nas primeiras posições das paradas três meses após o lançamento.
No aspecto pessoal, Lauro mantém uma relação profissional e afetiva estreita com a mãe, Cristina Zambon, que é administradora delegada da sua gravadora, a No Face Agency. Já o vínculo com o pai, o magistrado Nicola De Marinis, sempre foi mais complexo: Nicola desejava que o filho seguisse a carreira na magistratura, gerando um choque entre projeto paterno e escolha artística. Em entrevistas, o próprio pai relatou ter superado diferenças e assumido orgulho pelo percurso do filho.
Quanto à vida amorosa, depois de um longo relacionamento com uma jovem chamada Francesca, Achille foi ligado em 2025 a Giulia Toscano (advogada e empresária, irmã da cantora Sarah Toscano) — vínculo nunca oficialmente confirmado. Fora dos holofotes íntimos, Lauro alimenta uma rotina física rigorosa: é adepto de esportes de combate, do muay thai ao pugilato, e dedica-se a treinos com corda e trabalho corporal livre, aliados a uma dieta disciplinada.
O anúncio de sua presença na co-apresentação da segunda noite do Sanremo 2026 tem mais de simbólico do que de prático: é a materialização de um artista que transita entre o popular e o provocador, que transforma gesto em discurso e espetáculo em narrativa cultural. Como observadora do zeitgeist, vejo nesse movimento não apenas a ascensão de uma figura midiática, mas o espelho de um festival que continua reinventando suas formas e leituras — um verdadeiro cenário de transformação do entretenimento europeu contemporâneo.



















