Em noite dedicada às descobertas e ao futuro da canção italiana, Gianluca Gazzoli fez sua estreia no palco do Teatro Ariston para apresentar a primeira semifinal das Nuove Proposte no Sanremo 2026. Vestido com um elegante smoking preto e uma jaqueta de veludo que sugeria tanto classicismo quanto contemporaneidade, Gazzoli entrou em cena com a leve inquietude de quem sente o pulso do público e o eco cultural do momento. “Que emoção”, comentou ao subir ao palco — uma fala curta, mas que funcionou como legenda para um instante carregado de significado.
Apresentado pelos anfitriões Carlo Conti e Laura Pausini, Gazzoli desceu a icônica escadaria do Ariston acompanhado pelos jovens artistas em competição: Blind, El Ma & Soniko, Angelica Bove, Nicolò Filippucci e Mazzariello. A sequência visual — a escadaria, as luzes, os rostos novos — foi quase uma mise-en-scène que expôs o festival como um espelho do nosso tempo: em cena, as narrativas individuais desses artistas dialogam com as ansiedades e as esperanças de uma geração.
Não se trata de um começo absoluto para Gazzoli: o apresentador já é uma figura estabelecida como podcaster, locutor de rádio e personalidade televisiva, além de ter comandado o programa Sanremo Giovani na Rai 2 — o talent que selecionou dois dos semifinalistas desta noite. Os outros dois concorrentes chegaram através do circuito tradicional da Area Sanremo, lembrando que, mesmo em tempos de algoritmos, as rotas institucionais e os palcos locais continuam decisivos.
O que torna essa passagem significativa vai além do protocolo: a presença de Gazzoli no Ariston é um pequeno reframe do roteiro do festival — uma ponte entre as sonoridades emergentes e a cena mainstream que o evento representa. Em sua postura, havia a precisão de um host que conhece a cadência das emoções ao vivo e a curiosidade de quem, como crítico silencioso, observa a performance social que o espetáculo desenha.
No contexto mais amplo, a semifinal das Nuove Proposte funciona como laboratório de tendências. Os cinco nomes apresentados remontam a diferentes geografias simbólicas da música italiana contemporânea — do urbano ao acústico, da tradição local a influências globais — e, ao serem introduzidos por uma figura que transitou por rádio, podcast e TV, a mensagem é clara: a indústria procura integrar canais e linguagens para encontrar novos públicos.
Para quem assiste, a sensação é de estar diante de um roteiro oculto da sociedade onde cada artista, mesmo em poucas notas, dá pistas sobre memórias coletivas, identidades em mutação e a semiótica do viral. Gazzoli, com seu smoking de veludo, foi mais do que um apresentador: tornou-se um símbolo efêmero desse encontro entre tradição e renovação.
Enquanto o festival segue, o olhar se volta para esses nomes novos, que têm diante de si o desafio de transformar a breve exposição em trajetória. E para o público e os observadores culturais, a estreia de Gianluca Gazzoli no Ariston é lembrança de que, no grande espelho do Sanremo 2026, cada gesto cênico ressoa como um eco de transformação — a música, afinal, continua a escrever o roteiro coletivo.



















