Do branco do pódio ao brilho dos refletores: Sanremo 2026 incorpora o espírito dos Jogos de Milano‑Cortina ao abrir suas portas para atletas que transformaram disciplina em mito. A segunda noite do Festival terá a presença das campeãs olímpicas Francesca Lollobrigida e Lisa Vittozzi, além dos paralímpicos Giacomo Bertagnolli e Giuliana Turra, convidados para subir ao palco do Ariston no dia 6 de março — um encontro em que o espetáculo musical encontra o eco cultural das pistas.
Nem sempre o roteiro sai como planejado: a ausência mais sentida será a da rainha do short track, Arianna Fontana, anunciada oficialmente indisponível por febre. Claudio Fasulo, vicediretor de Entretenimento Prime Time da Rai, confirmou em coletiva que a atleta, que soma 14 medalhas olímpicas, não poderá marcar presença conforme o anunciado. A notícia, apesar da decepção, não diminui a carga simbólica da noite dedicada aos heróis de inverno.
A proposta é simples e potente: celebrar. E celebrar em Sanremo é traduzir vitórias esportivas em imagens que ficam na memória coletiva — uma espécie de reframe da narrativa nacional, onde os feitos atléticos viram símbolos e histórias pessoais se comparam ao roteiro de um grande filme. As estrelas de Milano‑Cortina chegam como protagonistas de um capítulo de glória que ajudou a compor as 30 medalhas totais do país em casa.
Arianna Fontana, quando saudável, encarna a longevidade competitiva. Nascida em Sondrio em 1990 e representante das Fiamme Oro, aos 35 anos deixou um legado de 14 medalhas olímpicas — 3 ouros (incluindo os 500 m em PyeongChang 2018 e Pequim 2022, e a staffetta mista em 2026), 6 pratas e 5 bronzes ao longo de seis edições, desde sua estreia aos 15 anos em Turim 2006. Superou, com sua coleção, o recorde histórico de Edoardo Mangiarotti, transformando-se em um espelho de resiliência e tática no gelo.
Francesca Lollobrigida, originária de Frascati e com 35 anos, traduziu experiência em autoridade competitiva: foi a primeira italiana a conquistar o ouro cronológico em Milano‑Cortina, vencendo os 3.000 m com recorde olímpico e repetindo no formato mais longo dos 5.000 m — prova em que já era campeã mundial em Hamar. Neta da icônica Gina Lollobrigida, Francesca uniu técnica e carisma, ocupando o espaço midiático com naturalidade e comentando, com franqueza, as complexidades da maternidade e do alto rendimento. Seu sorriso pós‑pódio circulou como uma imagem que sintetiza a paixão e a tenacidade italianas.
Lisa Vittozzi, estrela do biathlon italiano, chega a Sanremo como quem traz consigo a tensão cinematográfica do tiro e do esqui: precisão, fôlego e controle emocional que renderam ao país pódios em Mundiais e na Copa do Mundo, consolidando‑a como voz de um esporte que dialoga com a história e a paisagem alpina do país.
Ao lado deles, os paralímpicos Giacomo Bertagnolli e Giuliana Turra representam outro capítulo essencial dessa celebração: o movimento paralímpico italiano, sua coragem e reinterpretação do limite, terão seu lugar de honra no palco, refletindo um roteiro inclusivo onde a superação coletiva pulsa tão alto quanto as notas do festival.
Sanremo 2026, assim, não é apenas um intervalo entre canções; é um enquadre cultural que recolhe as imagens dos Jogos e as devolve à sociedade como símbolos de identidade e memória. Ao transformar medalhas em narrativas públicas, o Festival reafirma seu papel como um espelho do nosso tempo — e faz do Ariston uma sala de projeção onde o esporte vira cinema e o público, espectador e participante de um enredo maior.
Apesar da ausência por saúde de Arianna Fontana, a presença de nomes como Francesca Lollobrigida, Lisa Vittozzi, Giacomo Bertagnolli e Giuliana Turra assegura que a segunda noite de Sanremo terá o tom de celebração e reflexão que só uma mistura de cultura pop e memória coletiva pode oferecer.



















