Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — A trajetória de um atleta muitas vezes revela não só a força física, mas a fragilidade humana que atravessa a mesma pulsação do espetáculo esportivo. Aos 25 anos, Tommaso Giacomel, a principal referência do biathlon italiano na atualidade, enfrentou essa contradição: um problema cardíaco que exigiu intervenção e encerra sua temporada, mas não apaga a perspectiva de um futuro de campeão.
O episódio ocorreu durante a mass start de 15 km em Anterselva, quando Giacomel, já na liderança após o segundo polígono, foi forçado ao abandono por um mal-estar súbito — privando-o de uma possível medalha individual. Na sequência das provas em Milano Cortina 2026, onde conquistou a medalha de prata na staffetta mista, o biatleta foi submetido a uma bateria de exames no Hospital Galeazzi, em Milão: TAC, ressonância e teste de esforço.
Os exames revelaram uma anomalia de condução elétrica atrial. A solução proposta e realizada foi uma ablação cardíaca, procedimento que, segundo os médicos e a própria equipe, ocorreu com sucesso. Giacomel deve receber alta na quinta-feira e tem novos controles marcados para duas semanas; apenas após a sinalização clínica positiva será permitida a retomada gradual dos treinos.
Em seu perfil no Instagram, o atleta foi direto: “La mia stagione è finita, sono distrutto”. A franqueza do desabafo traduz a dimensão humana do revés — porém, quem acompanha sua carreira sabe que emoção e resiliência caminham juntas. Na Copa do Mundo, o jovem trentino vinha em posição de destaque: estava em segundo lugar, a 37 pontos do líder, com uma campanha que contava cinco vitórias e 23 pódios na temporada pré-olímpica.
Nascido em Vipiteno e residente em Imer (Trentino), membro das Fiamme Gialle, Giacomel soma também conquistas importantes em campeonatos mundiais — entre elas, três pratas em 2023 e medalhas de bronze em 2025 — que consolidaram sua condição de primeiro italiano nascido nos anos 2000 a vencer no circuito principal.
É preciso olhar para este episódio com a distância do analista: a interrupção da temporada não é um ponto final, mas um ponto de atenção sobre como as estruturas médicas, as equipes técnicas e os calendários esportivos respondem quando o corpo de um atleta exige pausa. Em esportes como o biathlon, onde precisão e resistência se confundem com elementos psicológicos e fisiológicos, a gestão cuidadosa da saúde torna-se componente estratégico da carreira.
Para a Itália do esporte, a notícia traz um misto de preocupação e esperança. Preocupação pela saúde imediata do atleta — cujo relato emocionado lembra a humanidade por trás da bandeira nacional — e esperança porque a solução médica encontrada aumenta as chances de um retorno competitivo. Giacomel não perde apenas uma temporada: adia, com maturidade forçada, a ambição imediata pela Copa do Mundo, mas preserva a possibilidade de um caminho mais longo e sustentável rumo aos pódios.
Num país que celebra tradições regionais e a formação de novos ícones esportivos, Giacomel representa uma geração que combina técnica, simbolismo e responsabilidade institucional. Seu coração, por ora “traidor” em palavra figurada, foi corrigido; a batida que marcou vitórias e expectativas segue ali, pronta para, em tempo oportuno, voltar a traduzir conquistas em narrativas coletivas.
Enquanto aguardamos os próximos exames e o retorno aos treinos, resta à torcida e ao observador o exercício de uma espera confiante: a história de Giacomel não termina em Anterselva, ela apenas muda de capítulo.






















