Filhos de arte no Ariston: herança, privilégio e o espelho cultural de Sanremo 2026
Em meio aos 30 Big que disputam o Festival de Sanremo 2026, o palco do Ariston recebe nomes que carregam, além de canções, um sobrenome que é história: LDA, Leo Gassmann, Tredici Pietro, Sal Da Vinci e Elettra Lamborghini. Esses artistas simbolizam, ao mesmo tempo, um privilégio visível e uma herança difícil — um roteiro onde o sucesso convive com a sombra das expectativas familiares.
O debate público é conhecido: ter um cognome d’arte abre portas, mas também exige que se prove mais. Há quem veja vantagens logísticas e mediáticas; há quem entenda que a verdadeira batalha é contra a comparação constante e a necessidade de legitimar-se artisticamente. Nesse contexto, os pais — famosos ou não — assumem o papel natural de torcida. Nomes como Gianni Morandi, Alessandro Gassmann e Gigi D’Alessio não esconderam o orgulho: postagens com fotos de família e mensagens emocionadas circularam nas redes, transformando o backstage em cena íntima compartilhada.
LDA é o pseudônimo de Luca D’Alessio, nascido em 2003, filho de Gigi D’Alessio e Carmela Barbato. O grande público o conheceu em Amici di Maria De Filippi (2021-2022), quando ficou em quinto lugar na categoria canto. Depois de integrar os Big em Sanremo 2023, ele retorna ao palco do Ariston em 2026 — desta vez ao lado de Aka7even com a canção “Poesie clandestine”. A trajetória de LDA é exemplo do encontro entre tradição familiar e percurso pessoal, uma cena que repete o movimento do cinema onde o legado declina em novos roteiros.
Leo Gassmann, filho do ator Alessandro Gassmann e da atriz Sabrina Knaflitz, também traz no sobrenome um eco do cinema italiano — ele é neto de Vittorio Gassman. Revelado ao grande público pelo X Factor (2018), venceu a categoria “Nuove Proposte” em Sanremo 2020 com “Vai bene così”. Já esteve entre os Big em 2023 com “Terzo cuore” e volta em 2026 com “Naturale”. Sua presença evoca a semiótica do legado: um sobrenome que carrega memória coletiva e expectativa crítica.
Tredici Pietro, nascido em Bolonha a 9 de agosto de 1997, é filho de Gianni Morandi e da sua segunda mulher, Anna Dan. Estreou em 2018 com “Pizza e Fichi” e no EP Assurdo (2019) contou com um featuring de Madame. O projeto “X questa notte” (2021) teve produção de Andry the Hitmaker, e em 2025 colaborou com Fabri Fibra no single “Che gusto c’è”. Com “Uomo che cade”, Pietro faz sua primeira participação oficial no Festival em 2026.
Sal Da Vinci é herdeiro direto da tradição napolitana: filho do cantor e ator Mario Da Vinci (nome artístico de Mario Sorrentino), falecido em 2015. A carreira de Sal construiu-se com anos de perseverança, alternando tropeços e reinvenções, teatros lotados e uma nova relevância trazida por “Rossetto e caffè”, viral no TikTok e abraçado pela Geração Z. A canção ganhou uma versão cantada com The Kolors na noite das covers de Sanremo 2025. Em 2026, Sal participa com a música “Per sempre sì”, um exemplo de como tradição e renovação podem conviver no mesmo palco.
Por fim, entre os apelidos celebrados, surge Elettra Lamborghini, nascida em Bolonha em 17 de maio de 1994. Filha do empresário Tonino Lamborghini e sobrinha do fundador Ferruccio Lamborghini, Elettra transita entre a música e a imagem pública de marca familiar — uma presença que lembra como o entretenimento moderno é também mercado e símbolo de status.
Mais do que uma lista de parentes, esses nomes compõem um painel cultural: o Festival funciona como um espelho do nosso tempo, onde o privilégio e a herança se encontram, se chocam e, por vezes, se reconciliam. A presença dos filhos de estrelas em Sanremo é um convite a olhar além da superfície do hit e a ler o roteiro oculto da sociedade — quem somos quando o público é também memória coletiva?
Se o palco do Ariston é um labirinto de luzes e expectativas, cada apresentação carrega a tensão de provar que o talento não é apenas um sobrenome. E enquanto o público se divide, resta aos artistas transformar essa herança em obra, ressignificando o passado para escrever um presente próprio — um verdadeiro reframe da realidade cultural.




















