Por Chiara Lombardi — No calor das redes e sob as luzes do Sanremo, um comentário aparentemente trivial voltou a ganhar ar na memória coletiva do espetáculo. Em uma transmissão ao vivo no Instagram, o apresentador e showman siciliano Fiorello fez um comentário sobre o corpo do cantor de Latina, Tiziano Ferro, dizendo: “Não queremos fazer bodyshaming mas Tiziano alguma coisinha a mais colocou”. Em seguida, tentou amortecer: “Tá tudo certo, somos todos assim… eu sou uma espécie de elástico”.
O episódio remete diretamente ao Festival de 2020, conduzido por Amadeus, quando uma troca bem-humorada entre os dois transformou-se em fricção ampliada pelas redes. Na segunda noite, após intervenções longas de Fiorello, Tiziano Ferro brincou ao microfone, irritado com o tempo: “Ama é l’una, vogliamo fa’ qualcosa domani?”. Depois completou com a frase que viralizou – “hashtag Fiorello statte zitto” – e o público online fez o resto.
Segundo relatos de bastidores, a piada de Tiziano não caiu bem entre a equipe de Fiorello, e a tensão passou a ser interpretada nas redes com diferentes lentes: para alguns, era apenas um duelo de timing cômico; para outros, um indicador do modo como celebridades são avaliadas publicamente — inclusive pelo próprio palco da televisão. Foi nesse contexto que Amadeus interveio, lançando em coletiva o contraponto “#Fiorello parla quanto vuoi”, sinalizando apoio e sublinhando o tom festivo do evento.
Mais do que um incidente pitoresco, a cena funciona como um pequeno espelho do zeitgeist: a intersecção entre humor, intimidade pública e a velocidade implacável das redes sociais. Há um “roteiro oculto” em que uma frase dita para descontrair pode, em segundos, transformar-se em julgamento ou em viral. A discussão sobre bodyshaming não é só moral; é cultural — revela como corpos, performances e emoções são narrados no espaço público contemporâneo.
Refletindo sob a lente da semiótica do viral, percebemos que o que importa nem sempre é o que foi dito, mas o que a audiência decide amplificar. Do ponto de vista da narrativa, o embate entre Fiorello e Tiziano Ferro virou uma imagem simbólica: o palco como set cinematográfico onde cada fala vira plano que será lido por múltiplas audiências.
Para além do ruído, há uma lição prática para artistas e apresentadores: o humor funciona como artes visuais — depende de enquadramento, timing e contexto. E quando o contexto é um festival nacional com ecos internacionais, o risco de mal-entendidos cresce. No fim, fica a sensação de que cultura pop e memória coletiva continuam a se escrever num roteiro de reframe constante, onde cada gesto reenvia significados e convida à reflexão.




















