Por Chiara Lombardi — Depois da primeira noite, o Sanremo 2026 já desenha o seu eco cultural: Carlo Conti, diretor artístico do festival, saudou os números com a serenidade de quem sabe que a audiência é também um espelho do nosso tempo. A edição de terça-feira, 24 de fevereiro, reuniu em frente à televisão 9,6 milhões de espectadores, a marca equivalente a um impressionante 58% de share. Embora o dado represente uma queda de cerca de 3 milhões em relação à abertura de 2025, Conti declarou-se satisfeito e conservou “o mesmo sorriso” do ano anterior.
Em coletiva, o diretor reiterou que, apesar das previsões de flutuação por conta da contraprogramação e do período, o Festival mantém-se «em boa saúde». «Eu e Ama (Amadeus) estamos entre os primeiros quatro lugares», comentou, lembrando também Claudio Baglioni como parte desse pódio simbólico de quem constrói a história recente do evento. Para Conti, atingir níveis tão elevados de audiência ainda significa que os italianos aprovaram a proposta do palco: «Quando se chega a dez milhões de telespectadores, é sinal de que o público apreciou».
O diretor não poupou elogios à coapresentadora: a performance de Laura Pausini foi definida como «simplesmente estrepitosa». Esse reconhecimento, em tom tanto profissional quanto afetivo, reforça a ideia de que o festival não é um mero concurso, mas um programa que dialoga com a memória coletiva e com a indústria musical — prova disso é que as canções do festival já figuram entre as trinta primeiras posições nas plataformas digitais.
Houve também espaço para mea culpa. Conti pediu desculpas pelo erro gráfico exibido durante a homenagem ao 80º aniversário do referendo que instituiu a república, quando a palavra Repubblica apareceu por engano como Repupplica. «Devemos controlar muitas coisas», disse ele, adotando uma prosa distante de señores da culpa e mais próxima do reconhecimento humano: «Quem não faz, não erra» — um aforismo que, aqui, funciona como um reframe sobre pressões e vulnerabilidades de uma produção ao vivo.
Sobre as críticas que qualificaram a programação como «previsível» ou «plana», Conti contrapôs com dados e sinais de consumo: as posições nas plataformas e o interesse das gravadoras, além da própria audiência, seriam indicadores de que a edição acertou o pulso. Ele ainda adiantou que as próximas noites terão mais pontos de entretenimento e espetáculo, especialmente quando menos cantores precisarem se apresentar, sugerindo uma cadência pensada entre competitivo e performativo.
Por fim, uma nota sobre representação feminina: Conti lamentou a presença reduzida de mulheres neste ano, embora tenha brincado que o ingresso do grupo Le Bambole di Pezza, composto por cinco integrantes, aumente esse número. A menção às atletas olímpicas foi um gesto de celebração do protagonismo feminino fora e dentro do palco, acompanhado por uma resposta enigmática quando questionado sobre sucessões futuras na direção do festival.
Como crítico cultural que observa o Sanremo 2026 não apenas como espetáculo, mas como roteiro oculto da sociedade, percebo nesta abertura um festival que mantém sua centralidade simbólica mesmo em mutação: números robustos, pequenos erros humanos e o eterno jogo entre tradição e atualização — a cena de um país que segue se contando através da canção.




















