Por Chiara Lombardi — Em um festival que frequentemente funciona como espelho do nosso tempo, nem todas as letras de Sanremo são apenas histórias de amor ou refrões pegajosos. O psicólogo clínico Marco Piccolo leu e analisou os textos dos 30 concorrentes de 2026 e propôs uma pequena guia “psy” para escutar as canções como se estivéssemos diante de um divã.
Piccolo não quis atuar como crítico musical, mas como leitor do inconsciente coletivo: encontrou nas letras temas que atravessam a psique contemporânea — necessidade de cuidado, culpa, coação a repetir, vergonha do masculino, dor e luto. Entre os cinco tópicos aprofundados e algumas menções, surgem canções que, à primeira vista, podem até parecer simples, mas que funcionam como janelas para feridas reais e mecanismos de defesa.
O primeiro destaque de Piccolo é “Magica favola” de Arisa. Para o psicólogo, a música trata da regressão psicológica como pedido de cuidado: um movimento de retorno a um lugar primitivo de contenção — “entre os braços da mãe”. A regressão aqui não é nostalgia estética, mas uma estratégia de sobrevivência emocional quando o presente se mostra caótico. A letra confunde paixão com sofrimento e mostra como, em muitas relações, o que se chama de amor é, na verdade, um mix de necessidade e dor. A favola, portanto, não é fuga, mas um dispositivo para não desabar.
O segundo foco é “Male necessario”, assinado por Fedez e Masini. Piccolo define o tema como explicitamente clínico: um eu tentando separar-se de um ego que aprisiona, com um tribunal interior sempre ativo. O verso sobre o pai — “cada pai começa como se fosse um Deus, mas acaba virando um álibi” — marca o fim da idealização. O título, ambíguo, abre duas leituras possíveis: a ideia de transformação que vem pelo atravessar do sofrimento, ou a armadilha de permanecer ligado à dor porque ela certifica a própria existência.
Em terceiro lugar aparece “Avvoltoi”, de Eddie Brock, que descreve com crueza a pulsão de escolher aquilo que magoa. Longe do romantismo, trata-se da repetição compulsiva — o sujeito regressa ao mesmo ponto doloroso na tentativa de controlá-lo, transformá-lo ou dominá-lo, mas reabre a ferida. A imagem dos “abutres” funciona como metáfora psíquica: não só inimigos externos, mas figuras internas que rondam e se alimentam de nossas feridas.
Essas leituras são, nas palavras de Piccolo, um convite para ouvir além do refrão: a canção como um roteiro oculto que traça padrões emocionais e sociais. No conjunto das obras apresentadas, emergem questões sobre a vergonha ligada a normas de gênero, o peso das histórias familiares, as respostas de contenção e os rituais de luto que permanecem inacabados.
Como crítica cultural, observo que a música popular contemporânea frequentemente opera como uma semiótica do viral — recepção e projeção de afetos coletivos. O festival, então, não é apenas palco de entretenimento, mas um cenário de transformação: as canções revelam — por vezes com imagens arrebatadoras, por vezes com simplicidade direta — o roteiro íntimo que atravessa gerações.
Piccolo propõe apenas uma lanterna clínica sobre esse mapa: não hierarquizar, mas iluminar. Porque, em última instância, cada letra que nos toca reflete algo de nós mesmos — um eco cultural que pede reconhecimento e, às vezes, cuidado.






















