Por Marco Severini — Bruxelas. Em um movimento que revela um redesenho de fronteiras invisíveis na cooperação Euro-Africana, a Banca Europea per gli Investimenti (BEI) canalizou mais de um terço dos empréstimos e financiamentos concedidos em 2025 para a África. Dos €9 bilhões de operações totais, cerca de €3,1 bilhões foram destinados a iniciativas que têm como eixo a sustentabilidade, a resiliência sanitária e o fortalecimento do setor privado.
Segundo o relatório anual da instituição, os beneficiários em destaque incluem Marrocos, Nigéria, Mauritânia, Egito e Malawi, sem esquecer estados menores como Gâmbia, São Tomé e Príncipe e Serra Leoa. Aproximadamente 46% das atividades financiadas foram vinculadas à ação climática e à green economy, apontando claramente a prioridade estratégica da BEI: investimentos que promovam desenvolvimento sustentável e estabilidade social, criando empregos por meio de parcerias mutuamente vantajosas.
No campo da saúde, a BEI apostou no reforço dos sistemas locais e na preparação contra pandemias. Em Ruanda, foi acordado um pacote composto por empréstimo e subsídio da Comissão Europeia — respectivamente €60 milhões e €35 milhões — para apoiar a produção local de vacinas moleculares contra doenças que continuam a representar um fardo para o continente, como malária, tuberculose e HIV. Em Angola, foi lançada a primeira campanha nacional de vacinação contra o cancro do colo do útero, com a meta de imunizar mais de dois milhões de meninas entre 9 e 12 anos.
As infraestruturas sustentáveis receberam atenção similar. Entre os projetos mais relevantes está o programa solar Obelisk no Egito — hoje a maior planta fotovoltaica com armazenamento por baterias do continente — e iniciativas de economia azul na Mauritânia e em Cabo Verde. Em Camarões, investimentos em eletrificação rural ampliaram o acesso à energia para mais de 1,6 milhão de pessoas, enquanto no Marrocos houve financiamentos destinados à produção de água potável para pequenas cidades e zonas rurais.
O apoio às empresas privadas surge no relatório como pilar da estabilidade económica. Em 2025, mais de €350 milhões foram mobilizados para capitalizar negócios locais. Um exemplo paradigmático foi o empréstimo de €20 milhões à Banque El Amana, na Mauritânia, com vetos direcionados a promover inclusão: 30% dos recursos foram explicitamente reservados a mulheres e 30% a jovens empreendedores — um movimento calculado para alterar, no longo prazo, os alicerces frágeis da economia local.
Este conjunto de intervenções configura, na minha leitura, um movimento decisivo no tabuleiro da geopolítica financeira: a UE, através da BEI, procura consolidar um eixo de influência baseado em infraestrutura verde, capacidade produtiva sanitária e capitalização do tecido empresarial africano. Trata-se de uma diplomacia de investimentos que visa reduzir vulnerabilidades e criar parceiros estáveis, evitando vácuos que poderiam ser explorados por atores externos com agendas divergentes.
Para observadores de estratégia internacional, a lição é clara: investimentos bem arquitetados — da energia solar às vacinas — são tão relevantes quanto tratados e alianças. A BEI não joga apenas com recursos; reposiciona alicerces para uma ordem regional mais resiliente, num momento em que a tectônica de poder exige pragmatismo e visão de longo prazo.






















