Por Chiara Lombardi — Enviada a Sanremo. A conferência de imprensa que antecede a segunda noite de Sanremo 2026 oferece um retrato revelador: o festival abre sob o signo de uma audiência em queda, mas mantém a compostura institucional. O apresentador Carlo Conti responde à crise de números com um sorriso tranquilo, como quem recusa o melodrama e prefere ler os dados como um desafio técnico — o roteiro oculto da atual edição.
Os números falam alto: uma perda na ordem de cerca de três milhões de espectadores em relação a 2025 — 12,6 milhões contra 9,6 milhões — e uma retração do share de 65,3% para 58%. Em termos brutos, são sinais de que o eco cultural do festival não ressoou com a mesma intensidade do ano passado. Dois motivos emergem com clareza: um cast percebido como inferior em termos de qualidade e a ausência de um verdadeiro show, entendendo por show não apenas a sequência de números, mas momentos de invenção e improviso que marcam memoria.
No palco da conferência, Carlo Conti adotou um tom franco: admitiu ter previsto um resultado inferior por conta da contraprogramação e da data deslocada, e afirmou que, se a erosão persistir, a responsabilidade recairia sobre o diretor artístico. Preferiu, porém, destacar os recordes compartilhados — ele e Amadeus em posições altas nas estatísticas históricas desde 1997 — e lembrar que o festival “está bem” em termos absolutos.
Como crítica cultural, vejo nessa resposta a tentativa de transformar o declínio em narrativa controlada. O Sanremo funciona sempre como um espelho do nosso tempo: não é apenas entretenimento, mas também termômetro de gostos, de nichos digitais e de estratégias de espetáculo. A edição repetiu estruturas do ano anterior sem a molécula de surpresa que ativa a audiência massiva.
Para a segunda noite, estão confirmadas algumas presenças que buscam recuperar a intensidade perdida: além de Conti e da anfitriã musical Laura Pausini, subiram ao palco Pilar Fogliati, Achille Lauro e Lillo. Uma novidade que chama atenção é o dueto entre Lauro e Pausini, anunciado como momento de destaque. Lauro também cantará “Perdutamente” em homenagem às vítimas de Crans-Montana, transformando o palco num lugar de memória coletiva — uma cena onde o show se encontra com a responsabilidade ética.
Do ponto de vista digital, o festival não reencontrou o pulso das edições recentes. Dados de monitoramento apontam queda no ganho de seguidores em comparação com 2024 e 2025, o que reflete uma contemporânea semiótica do viral: presença nas redes hoje exige estratégia de participação e surpresa, não apenas repetição da fórmula.
Conti, elegante, disse antes da estreia que não se deixaria abalar por resultados nem se deixaria levar pela euforia. Ao responder sobre sua serenidade, deixou claro: este será seu último Festival. A sensação é de fim de ato, enquanto a produção precisa repensar entradas, invenções de palco e estratégias narrativas para reacender a centelha que transforma audiência em fervor cultural.
O encontro com a imprensa terminou com um tom civilizado: o festival segue, a segunda noite promete duetos e homenagens, e a plateia — física e digital — dará o veredicto. Eu sigo observando, como quem contempla um filme que se desenrola ao vivo, procurando nas entrelinhas o roteiro não escrito do público.
Termina aqui o relato da conferência. O próximo ato acontece esta noite, por volta das 20h40, com 15 cantores em competição e a expectativa de que alguma invenção possa, finalmente, deixar impressão duradoura.




















