Por Chiara Lombardi — Replicamos aqui a entrevista de Renato Franco com Lillo, originalmente publicada em 20 de julho de 2025. O comediante será co‑condutor da segunda noite do Sanremo 2026, na quarta‑feira, 25 de fevereiro. Sensível ao pulso cultural, Lillo conversa sobre carreira, medos de palco e o fenômeno do momento: Posaman.
Quando o repórter pergunta se ele é um mentiroso, Lillo responde com aquela compostura de quem ensaia palavras como se fossem cenas: “Bugiardo? O justo — não existem pessoas que não digam mentiras. Às vezes uma mentira ajuda.” Sobre egoísmo, nega com elegância: “No, egoista não. Sou um sonhador que sonha demais. Em certos momentos deveria ficar mais com os pés no chão.” E a vaidade? “Sou vaidoso à minha maneira. Sempre fui autoirônico, isso é fundamental.”
Esses traços alimentam o personagem que interpreta em Tutta colpa del rock, filme que estreia em 28 de agosto e tem no elenco Maurizio Lastrico, Elio e Valerio Aprea. A trama — de um pai ausente que, por uma série de erros tragicômicos, acaba preso e forma uma banda com outros detentos para ganhar o prêmio que manterá uma promessa à filha — funciona como um pequeno roteiro do nosso tempo: o cinema como espelho, a comédia como refrão que revela fragilidades sociais.
Lillo admite que sempre foi um garoto tímido e que o rito de aparecer ao vivo ainda provoca um arrepio inicial. “Ainda hoje, no teatro, nos primeiros 20 segundos sinto um embaraço tremendo.” A virada aconteceu com Greg e a banda Latte & i Suoi Derivati: “Chegamos a um bar e havia uma fila que dava a volta no quarteirão. Achei que tivesse um evento importante — eram todas pessoas para nos ver.” Essa cena é um pequeno marco: o nascimento de um público que enxerga nesses artistas um espelho afetivo da geração.
Houve também noites humilhantes. Lillo recorda a pior apresentação: no Teatro delle Vittorie, onde anualmente distribuíam ingressos para pensionistas. “Fizemos um espetáculo surreal, demencial, que agradava aos jovens, mas com aquele público não deu certo: nunca riram, nem uma vez. No fim, fomos nós que começamos a rir de incredulidade.” A anedota traz consigo a semiótica do palco — o mesmo texto que provoca gargalhadas em um lugar pode ficar mudo em outro; é uma prova de que o humor é contexto e memória coletiva.
Sobre Posaman, ele traça a anatomia do sucesso: ligado ao fenômeno LOL, o super‑herói das poses funciona porque é infantil, direto e fisicamente elástico. “É uma comicidade ancestral, que se conecta ao inconsciente: ele se coloca em pose imediatamente, um gesto universal.” O personagem, acrescenta, costuma ultrapassar as intenções do criador — ganha camadas e se torna um símbolo transversal.
Quanto à relação com Greg e ao suposto ciúme pelo novo sucesso, Lillo é pragmático: “Desde o início tivemos projetos paralelos: eu me dediquei mais ao cinema, ele às noites musicais. Não é ciúme; somos como amantes que se reencontram nas parcerias e depois seguem caminhos próprios.” É uma imagem retórica precisa — resume décadas de colaboração e autonomia.
Nesta antecipação do Sanremo 2026, Lillo surge como figura híbrida: comediante popular, ator cinematográfico e um observador que traduz o zeitgeist numa piada ou numa cena. Em seu discurso, o riso é sempre um reframe da realidade — e ele, com a prática do palco e do cinema, sabe bem como virar o espelho para que nos reconheçamos.



















