Por Chiara Lombardi — A trajetória de Serena Brancale é um daqueles roteiros que parecem escritos a partir do eco cultural dos nossos tempos: uma artista que transformou a gavetta em linguagem e memória, chegando agora ao epicentro do Festival de Sanremo 2026 com a canção dedicada à mãe, “Qui con me”.
Nascida em 1989 em Bari, Serena é filha de Agostino Brancale — ex-jogador de futebol da Série C, com passagens por Monopoli, Marsala e Catanzaro — e de Maria De Filippis, musicista e professora ítalo-venezuelana. A perda precoce de Maria, em 2020, reforça o vínculo emocional e simbólico da nova canção, que a cantora leva a Sanremo como homenagem e como um pequeno relicário afetivo.
Na construção dessa carreira, há peças humildes e decisivas. Foi a mãe quem primeiro percebeu e alimentou o talento de Serena, depois que a família notou a irmã mais velha, Nicole, já com um percurso musical consolidado. Nicole, hoje professora de piano e com carreira no conservatório de Potenza, teve um papel fundamental — inclusive dirigindo Serena no palco do Festival —, enquanto a mãe direcionava os primeiros ensaios, os provos e a disciplina. A narrativa familiar emerge como um cenário de formação: uma cena íntima que moldou a artista.
Aos 14 anos, a jovem Brancale teve uma breve passagem pelo cinema, com uma pequena participação em ‘Mio cognato’ (2003), de Alessandro Piva, e realizou testes para produções maiores — de ‘The Passion’ de Mel Gibson a um filme de Pieraccioni — sem sucesso. Essas portas fechadas não definiram seu destino: com 15 anos aprendeu violino, diplomou-se em canto jazz no conservatório e, aos 20, iniciou a famosa rotina de cantar em casamentos — uma rotina de resistência e ofício que, em italiano clássico, se chama gavetta.
Em 2009 tentou a sorte em X Factor (edição vencida por Marco Mengoni), mas foi rejeitada nos provinos por Simona Ventura. Passada a decepção, a artista não desistiu: refez-se, estudou, ensinou música e construiu uma carreira de palco e sala de aula, acreditando numa arte que se sustenta por disciplina e repertório. Em 2015 voltou ao Festival de Sanremo, na seção Nuove Proposte, com ‘Galleggiare’ — performance que terminou em eliminação no duelo com Giovanni Caccamo, futuro vencedor daquela categoria. Da experiência ela extraiu humilhações e aprendizagens, descrevendo-se, aos 25 anos, como ‘impreparada’ e vulnerável diante de uma prova pública.
O percurso de Serena — de quem se dizia confinada a uma ‘nicho jazz’ — reconfigurou-se nos anos seguintes: sua personalidade artística plurifacetada começou a conquistar público e crítica. Em 2025, com ‘Anema e core’, obteve o 24º lugar em Sanremo, mas a canção tornou-se um pequeno êxito popular. Agora, projetada entre os prognósticos como possível vencedora de Sanremo 2026, Serena chega com maturidade emocional e uma canção que é, ao mesmo tempo, luto, celebração e testemunho.
Como observadora cultural, vejo em sua trajetória um espelho do nosso tempo: a artista que passou por rejeições e trabalhos cotidianos (o casamento que vira palco formativo), converte essas experiências em narrativa pública. A sua música funciona como reframe da realidade — uma semiótica do viral que, no entanto, mantém as raízes do ofício. Serena não é apenas uma voz bonita; é uma contadora de memórias que nos lembra que o sucesso muitas vezes se escreve pelo acúmulo de pequenos ofícios e da educação sentimental que recebemos em casa.
Se “Qui con me” é a carta mais íntima que leva a Sanremo, ela também é o momento em que a cantora transforma luto em partitura, memória em palco. E é aí que reside a força: não em um único refrão pegajoso, mas na coerência de uma carreira construída entre conservatório, salas de festa e noites de festival. A própria trajetória de Serena é ela mesma um roteiro oculto da sociedade — um lembrete de que a cultura popular carrega, sempre, vestígios das histórias particulares que a alimentam.
Imagem: uma artista que aprendeu a dirigir a sua voz entre as cadeiras de casamento e as cadeiras do conservatório; agora, diante da ribalta de Sanremo 2026, propõe-nos uma escuta que é íntima e coletiva.






















