Por Otávio Marchesini — A presença de Giacomo Bertagnolli no palco da segunda noite do Festival de Sanremo não é apenas mais um episódio de exposição midiática. Representa a convergência entre esporte, identidade regional e memória coletiva numa temporada em que as grandes competições voltam a ocorrer a curta distância da casa dos atletas: as Paralimpiadi Milano Cortina 2026.
Nascido com baixa visão por uma atrofia do nervo óptico, Bertagnolli, 27 anos, aprendeu a esquiar já aos dois anos e iniciou a carreira competitiva aos 12. A trajetória dele, construída com disciplina e precisão, rendeu conquistas precoces: o primeiro ouro mundial em Tarvisio aos 18 anos e o primeiro ouro olímpico na Coreia do Sul aos 19.
Entre PyeongChang 2018 e Pequim 2022, o esquiador conquistou oito medalhas paralímpicas — quatro delas de ouro — e consolidou-se como peça central da seleção italiana. O palmarés completo revela amplitudes: dez ouros, cinco pratas e dois bronzes em Mundiais; quatro ouros, três pratas e um bronze em Jogos Paralímpicos; além de duas Taças do Mundo gerais e diversas taças de especialidade. Essa versatilidade nas disciplinas — descida, super-G, gigante, especial e combinado — o estabelece como um atleta raro, capaz de transitar por todo o espectro técnico do esqui alpino.
Nas pistas, Giacomo compete ao lado da sua guia, Andrea Ravelli, com quem divide também o aniversário em 18 de janeiro. A relação entre atleta e guia vai além da técnica: é uma simbiose de confiança, treinamento e comunicação, onde detalhes mínimos podem decidir resultados. Em PyeongChang, por exemplo, um problema com o equipamento — um esqui que se soltou da guia anterior — custou a chance de mais uma medalha e serviu como lição sobre a necessidade de obsessão pelos detalhes.
Filiado às Fiamme Oro, Bertagnolli não é apenas uma promessa esportiva: é uma figura pública que carrega um papel simbólico para a comunidade paralímpica italiana. Para ele, as Milano Cortina 2026 terão um peso emocional particular — estar “a uma hora e meia de casa” significa competir com o calor de amigos, família e admiradores nas arquibancadas. Esse retorno é também um momento de reconhecimento social: a visibilidade doméstica transforma a competição em rito comunitário.
Além das pistas, o atleta cultiva outras paixões. Praticou hóquei no gelo na infância, dedica-se à escalada como lazer e mantém interesse por finanças e investimentos — uma faceta menos conhecida, que revela um olhar pragmático sobre o futuro. Nos tempos livres, prioriza a companhia de amigos e da namorada, compondo um retrato humano que escapa ao estereótipo do campeão isolado.
A ida a Sanremo é, assim, mais do que um compromisso promocional: é um gesto de aproximação entre o esporte paralímpico e o grande público. Bertagnolli tem um apelo simples e estratégico para quem pensa em acompanhar os jogos ao vivo: os ingressos das Paralimpíadas costumam ser mais acessíveis que os das Olimpíadas — uma oportunidade para ver, presencialmente, a intensidade competitiva e o valor simbólico do evento.
Ao olhar para Giacomo Bertagnolli como figura pública e esportiva, é possível perceber o quanto sua carreira dialoga com temas maiores: inclusão, profissionalização do esporte adaptado e a construção de símbolos nacionais que ultrapassam as rivalidades esportivas de curto prazo. Sua história demonstra que vencer nas pistas — e aparecer no palco de Sanremo — é também ganhar voz numa sociedade que ainda redefine como celebra seus campeões.
25 de fevereiro de 2026






















