Em mais um gesto que mistura ativismo e espetáculo, a atriz e ativista Naike Rivelli anunciou que entregará pessoalmente ao diretor do Festival de Sanremo, Carlo Conti, uma carta da organização PETA pedindo a proibição do uso de penas de animais nas roupas e figurinos apresentados no palco. O pedido faz parte de uma campanha internacional que visa tornar os grandes palcos — especialmente os transmitidos em Eurovisão — vitrines de uma moda realmente cruelty free.
O apelo de Naike Rivelli não surge ao acaso: nos últimos meses a discussão ganhou atos públicos, como o flash mob promovido por PETA na Piazza Duomo, em Milão, que coincidiu com a abertura dos Jogos Olímpicos e buscou conscientizar sobre o uso de plumas tanto em enchimentos de casacos quanto em acessórios de cena. Em paralelo, a organização enviou solicitações similares a outras apresentadoras e diretores de programas — entre eles, segundo comunicados anteriores, a produção de Milly Carlucci — e tem incluído estilistas no debate, pedindo coleções livres de penas reais.
Naike, que é conhecida por sua defesa dos direitos dos animais e atua como embaixadora da green room de Casa Sanremo, postou um breve vídeo nas redes sociais antes de desembarcar na Riviera ligur para “caçar” o contato com Carlo Conti. “Soube que ele é uma pessoa excelente — tenho certeza de que vai ao menos ler a carta”, declarou, carregando na sutileza do gesto a intenção de transformar um momento de entretenimento em um pequeno reframe cultural.
A argumentação da PETA é simples e direta: a produção de penas de animais para a moda envolve uma cadeia de exploração que recorre a subcontratações e práticas que não garantem o bem-estar das aves — ostras, gansos, patos, perus e outras espécies são frequentemente citados. Para os ativistas, privar animais de suas penas é uma forma de sofrimento, e investigações anteriores teriam evidenciado métodos cruéis durante a retirada do material.
No plano simbólico, o palco de Sanremo é mais que um cenário: é um espelho do nosso tempo, capaz de projetar valores e estéticas para milhões de espectadores. A presença de figurinos com plumas verdadeiras, argumentam os ativistas, normaliza um consumo que tem um roteiro oculto de violência. Ao optar por alternativas sintéticas ou designs que celebrem a criatividade sem exploração, artistas e produtores podem enviar uma mensagem distinta — uma semiótica do viral que alia glamour à ética.
Em seu tom incisivo e provocador, Naike Rivelli repete o lema que embasa a mobilização: melhor transmitir uma imagem limpa de crueldade do que esconder sofrimento sob lantejoulas e plumas. A campanha não pede apenas uma mudança estética, mas uma reconfiguração do que consideramos aceitável em shows de grande visibilidade: trata-se de transformar o espetáculo num cenário de transformação, onde a beleza não carregue consigo o eco da exploração.
Resta saber se a organização do festival acolherá o apelo. Carlo Conti, figura central do evento, recebe uma carta que carrega a expectativa de ativistas e fãs por uma postura mais responsável. Se aceito, o gesto poderia ecoar pela indústria do entretenimento, incentivando estilistas e produtores a repensarem materiais e fornecedores.
Num mundo em que imagem e mensagem se confundem, a decisão sobre o uso de penas de animais em palco é, ao mesmo tempo, um detalhe de figurino e um termômetro cultural. Como observadora do zeitgeist, enxergo nessa demanda um convite: que o brilho das luzes de Sanremo passe a refletir também escolhas conscientes, e não apenas a opulência de ontem. O roteiro da moda pode — e talvez deva — incluir novos atos de responsabilidade.






















