Por Aurora Bellini — A proposta para reconhecer os cavalos como animais de estimação recebeu um importante apoio da Italian Horse Protection (IHP), a maior organização italiana dedicada à proteção dos equídeos. A iniciativa — composta por três projetos de lei, entre eles o apresentado pela deputada Michela Vittoria Brambilla — começou a tramitar na Comissão de Agricultura da Câmara e acende um debate essencial sobre ética, bem-estar animal e controle da cadeia produtiva.
No centro de resgate da IHP, em Montaione, nas colinas próximas a Florença, os animais recolhidos a partir de situações de maus-tratos recuperam serenidade e confiança. É essa experiência prática, acumulada por mais de uma década, que a IHP diz ter colocado à disposição dos parlamentares durante a elaboração do texto. Segundo o presidente da associação, Sonny Richichi, reconhecer formalmente os equídeos como animais de estimação é “um primeiro passo importante”. Ainda assim, ele ressalta que há limites a serem superados e que a lei exigirá recursos concretos para sua efetiva implementação.
O cerne da preocupação levantada pela IHP é a traçabilidade. Hoje, o sistema de registro equino — o chamado registro/ânagrafe equina — mostra-se ineficiente em pontos cruciais, deixando brechas que favorecem os abates clandestinos. Para Richichi, sem um aperfeiçoamento rigoroso dos controles e sem fiscalização efetiva, a mudança de status legal corre o risco de se tornar letra morta: “Se não melhorarmos o monitoramento, continuaremos a ver operações policiais que revelam redes de abate ilegais, além de processos judiciais ainda em andamento”, afirma.
Do lado político, o caminho não é simples. Embora a proposta principal tenha origem em setores próximos à maioria — com a deputada Brambilla (Noi Moderati) como primeira signatária — há outros dois textos similares apresentados pela oposição, assinados por Luana Zanella (Avs) e Susanna Cherchi (M5S). Ainda assim, representantes de associações de criadores e a organização Federcaccia manifestaram reservas: temem impactos negativos sobre a atual cadeia de produção de carne e alertam para as implicações econômicas da proibição do abate direcionado.
Na prática, o reconhecimento jurídico dos equídeos como animais de estimação implicaria o fim do criação para abate direcionado e a proibição da comercialização da carne desses animais. É esse ponto que concentra a maior parte das críticas por parte dos setores ligados à produção e ao comércio de carne equina. Por outro lado, para organizações de proteção animal como a IHP, a mudança representa um avanço civilizatório: não se trata apenas de leis, mas de cultivar novos valores que iluminem um horizonte mais ético para as relações entre humanos e animais.
A IHP destaca ainda que colaborou intensamente com a parlamentar primeira signatária, oferecendo observações e propostas nascidas da prática do resgate, reabilitação e reinserção de animais. Agora, a organização pede aos legisladores que não subestimem a necessidade de financiar e fortalecer os instrumentos de registro e fiscalização. “A lei pode abrir um novo caminho — cabe aos instrumentos de controle garantir que esse caminho seja seguro e real”, comenta Richichi, adotando uma imagem querida por quem observa o mundo com olhos de transformadora: semear mudanças e iluminar percursos.
Enquanto o projeto avança na comissão, haverá espaço para debate técnico e político. O desafio é unir sensibilidade e rigor: proteger os cavalos e, ao mesmo tempo, estruturar uma resposta eficaz ao problema dos abates clandestinos. É um momento para tecer alianças entre sociedade civil, instituições e parlamento, permitindo que uma lei nasça com solidez e legado — um renascimento cultural que valorize a vida animal sem perder de vista a justiça e a responsabilização.






















