Enquanto o público humano debate quem ficará com a Palma de Ouro do Festival de Sanremo, um grupo inesperado de críticos musicais acompanha a competição de outra forma. Cerca de 250 búfalas das Fattorie Garofalo, produtoras da tradicional Mozzarella di Bufala Campana DOP, estão sendo submetidas a um programa de enriquecimento ambiental que inclui a transmissão das canções em competição, em horários definidos e a volume controlado.
A iniciativa não é capricho: é um experimento pensado para observar efeitos sobre a calma, o comportamento e a produção de leite dos animais. As músicas — do repertório que ecoa no palco do Ariston — são difundidas nas instalações rurais com objetivo duplo: integrar simbolicamente um ícone da cultura italiana à rotina do campo e testar, com bases científicas, impactos positivos no bem‑estar animal.
Como explica Alfio Schiatti, chief commercial officer das Fattorie Garofalo, “alguns estudos sobre animais de produção mostram que música lenta e relaxante pode reduzir o estresse nos animais de leite e, em certos casos, estar associada a incrementos produtivos da ordem de cerca de 3% e a uma ordenha mais regular”. Para a fazenda, o bem‑estar animal não é um jargão de marketing, mas um valor estruturante que orienta decisões — desde a gestão das baias até investimentos em formação de pessoal e monitoramento contínuo.
O cenário suscita perguntas interessantes para quem observa cultura e sociedade: por que projetamos um festival urbano, de glamour e narrativas televisivas, sobre a vida silenciosa do curral? Em certo sentido, é o espelho do nosso tempo: um gesto que reframe a relação entre patrimônio cultural e processos produtivos, transformando a playlist do Sanremo num estímulo sensorial com desdobramentos econômicos e éticos. A música atua aqui como uma espécie de roteiro oculto que redefine práticas agrícolas, trazendo à tona a semiótica do bem‑estar animal.
O formato do experimento é simples e cauteloso. As canções são reproduzidas em faixas horárias específicas e a um volume moderado para evitar qualquer estresse auditivo. Observadores treinados registram alterações no comportamento coletivo das búfalas — por exemplo, sinais de relaxamento, frequência de movimentos, padrões de alimentação — e acompanham indicadores produtivos relacionados à ordenha.
Do ponto de vista cultural, há também um efeito simbólico: conectar o universo da produção alimentícia à narrativa nacional do entretenimento é um gesto de curadoria afetiva. A música de Sanremo, para além do hit do momento, transforma‑se em um dispositivo de cuidado, uma espécie de trilha sonora aplicada ao cotidiano rural.
Resta afirmar que a experiência das Fattorie Garofalo se apoia em evidências e em uma visão integrada de fazenda: as búfalas não são apenas rebanho, mas integrantes de uma rede de valor cultural e econômica. Se os primeiros resultados confirmarem um ganho produtivo modesto e um ambiente mais calmo, teremos mais um exemplo de como práticas culturais podem ser repensadas como ferramentas de inovação no campo — uma pequena revolução sonora que ressoa além do estábulo.
Em tempos em que tudo vira espetáculo, ver o Festival de Sanremo atravessando o portão da fazenda pode parecer anedótico, mas é também um sinal de que o entretenimento e o cuidado podem se cruzar em prol de tradições que alimentam uma nação. Como analisadora cultural, vejo nisso um convite a olhar para a música como tecnologia social: nem apenas show, nem apenas som — um estímulo com implicações reais sobre corpos, memórias e produção.






















