Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes. Militarem do Nucleo di Polizia Economico-Finanziaria da Guardia di Finanza e do Nucleo Investigativo do Comando provinciale dei Carabinieri de Nápoles cumpriram mandados de prisão preventiva contra quatro investigados — três apontados como afiliados ao clã Contini e um advogado — por uma série de crimes que evidenciam a infiltração da Camorra no funcionamento do hospital San Giovanni Bosco.
O quadro acusatório reúne delitos graves: associação mafiosa de matriz armada, corrupção, falso testemunho, falsas declarações à autoridade judiciária, falsidade ideológica em atos públicos, transferência fraudulenta de valores, acesso indevido a sistemas informáticos, tentativa de extorsão, extorsão consumada, usura, lavagem de dinheiro e autorreciclagem. Três dos investigados já tiveram a medida executada; para um quarto, a ação ainda está em andamento.
As apurações, originadas nas declarações de um colaborador de justiça, apontam que afiliados do clã Contini exploravam atividades lucrativas dentro do San Giovanni Bosco amparados pela força intimidatória típica da organização. A investigação documentou, entre outras práticas, pressões e extorsões dirigidas a gestores do hospital, acordos de conluio com servidores públicos e uso de titularidades fictícias para camuflar operações.
Na prática, o grupo gerenciava serviços de bar e buvetes, bem como máquinas automáticas de snacks e bebidas, sem as autorizações necessárias, sem pagar os aluguéis devidos à ASL e utilizando, de forma abusiva, as redes e as utilidades do próprio hospital. Esses rendimentos foram obtidos em cenário de impunidade operacional, sustentado por ameaças e por relações de cumplicidade com trabalhadores da unidade.
Outra vertente investigada envolve uma associação que atuava no setor de serviços de ambulância. Com a colaboração de pessoal sanitário e parasanitário, de vigilantes privados e de funcionários de empresas terceirizadas, o grupo garantiu favores ilegítimos a integrantes do clã e de organizações aliadas. Foram identificados internamentos hospitalares realizados em desrespeito a procedimentos formais de acesso, a emissão de certificados falsos — inclusive para facilitar libertações carcerárias ilícitas — e o transporte irregular de corpos em ambulâncias, quando o protocolo exige serviços funerários autorizados.
Auxiliando as manobras, médicos e outros profissionais coniventes produziram documentos e laudos falsos. No interesse do clã, os investigados também teriam executado inúmeras fraudes a seguradoras, simulando acidentes de trânsito e recrutando testemunhas falsas remuneradas, além de redigir perícias mendazes com o objetivo de obter indenizações indevidas.
Entre os alvos está um advogado indiciado por concurso externo em associação mafiosa. Segundo os investigadores, o profissional teria viabilizado a circulação de informações entre o meio carcerário e o exterior, sobretudo sobre os valores em dinheiro entregues regularmente às famílias dos afiliados — as chamadas “mesate” — e participado da logística financeira do grupo.
A operação evidencia um sistema de controle paralelo sobre parte dos serviços internos do hospital San Giovanni Bosco, que conflita com a segurança institucional e com a legalidade dos serviços de saúde. A investigação prossegue com diligências complementares, busca de documentos e o interrogatório de testemunhas para consolidar as provas e mapear toda a extensão das relações entre o clã e os funcionários públicos envolvidos.
Este relatório é resultado de apuração rigorosa e cruzamento de informações oficiais. A realidade traduzida demonstra como organizações mafiosas se aproveitam de estruturas públicas para gerar receitas ilícitas, corroer instituições e violar direitos básicos de pacientes e trabalhadores.




















