Por Chiara Lombardi, Espresso Italia — Na noite de abertura do Festival de Sanremo, que coincide com o quarto aniversário do início do conflito na Ucrânia, o porta‑voz da Unicef Itália, Andrea Iacomini, dirigiu um apelo sentido ao diretor artístico Carlo Conti e à organização do evento. O pedido é simples e carregado de simbologia: que o palco mais famoso da canção italiana reserve, ainda que por um instante, uma palavra ou imagem de solidariedade às crianças que continuam a ser vítimas de uma guerra que persiste.
No seu comunicado, Iacomini recorda a identidade cultural profunda do povo ucraniano, lembrando que se trata, também, «de um povo de artistas e músicos». O objetivo do apelo não é politizar o festival — que permanece, como sempre, a grande festa da canção italiana — mas recuperar um gesto de humanidade. Em palavras que evocam o repertório civil do próprio Sanremo, o porta‑voz sugere que a música e a arte sejam usadas como um eco cultural para dar voz a quem vive sob o fragor das bombas.
O gesto proposto remete a uma memória pública já conhecida: anos atrás, Carlo Conti sentou‑se nas escadarias do Teatro Ariston para a campanha da Unicef «Tutti giù per terra», um ato visual que denunciou a trágica morte de crianças no mar. Dessa vez, a imagem sugerida é igualmente potente e direta — uma fotografia de um homem com uma menina às costas, diante de um edifício destruído. Não se trata de performatividade, diz Iacomini, mas de um refrão de empatia que reaviva o roteiro oculto da responsabilidade coletiva.
Como observadora do zeitgeist, não posso deixar de notar que pedir um gesto simbólico num evento cujo cerne é a canção é também uma forma de lembrar que a cultura não é isolamento: ela é espelho do nosso tempo. A proposta da Unicef funciona como um reframe da realidade — um lembrete de que, enquanto a televisão nos convida ao entretenimento, lá fora há crianças cujo cotidiano foi silenciado pela guerra. Pedir que o palco da música se torne, por um minuto, instrumento de denúncia e de fraternidade é insistir na ideia de que a música pode ser um veículo de paz.
Importante sublinhar: o apelo não clama por posicionamentos partidários, mas por um ato humano. Um instante de visibilidade que possa, por meio de uma foto ou de um breve gesto, reativar a memória coletiva sobre os custos humanos do conflito. Em tempos de consumo rápido de imagens, a simbologia bem escolhida tem o poder de penetrar a opinião pública como uma cena que não se esvazia ao fim do refrão.
O pedido da Unicef a Carlo Conti é também um apelo à tradição do festival como palco cívico: já foram muitas as ocasiões em que o Sanremo transcend eu o entretenimento e assumiu um papel de testemunho social. Resta saber se na abertura desta edição, marcada pelo peso histórico do quarto ano de guerra, a canção italiana abrirá espaço para um gesto que fale em nome das crianças ucranianas e reafirme que a arte pode, sim, ser uma linguagem de solidariedade.






















