Por Marco Severini — Um movimento de grande significado estratégico e simbólico está em curso no extremo norte do globo: pela primeira vez, sementes de oliveira serão depositadas no Svalbard Global Seed Vault, o maior banco de sementes do mundo, situado no arquipélago ártico norueguês. A iniciativa não é apenas um gesto de precaução botânica; representa um lance cuidadoso num tabuleiro de xadrez geobiológico em que se preservam alicerces da agricultura e da cultura mediterrânea.
Uma delegação liderada pelo Conselho Oleícola Internacional (COI) assumiu a responsabilidade pelo envio dos lotes ao cofre de Svalbard. O material vegetal provém, em larga medida, do banco de germoplasma do olival da Universidade de Córdoba — onde pesquisadores selecionaram, entre cerca de 700 variedades, 50 cultivares consideradas essenciais — e de exemplares selvagens colhidos e complementados pela Universidade de Granada. No total, foram expedidos 500 sementes, pensadas para representar um pool genético capaz de permitir replantios e recriações futuras do olival ante eventuais cataclismos.
Como explicou Pablo Morello, especialista da Universidade de Córdoba, a seleção visou tanto preservar a diversidade genética das variedades cultivadas quanto incluir linhagens em risco de extinção oriundas da Andaluzia e das Ilhas Canárias. “Se um cataclismo varresse as oliveiras cultivadas, teríamos material com características agronômicas robustas para reconstruir novas variedades”, disse Morello. A preparação desses 500 exemplares incluiu colheita em escala, seleção criteriosa, secagem controlada para remoção de umidade e testes de germinação realizados no Centro de Recursos Genéticos Vegetais, em Madri. Os grãos foram acondicionados em envelopes e caixas especialmente preparados para transporte e armazenamento de longa duração.
O processo técnico teve, porém, um componente igualmente complexo no plano burocrático e institucional. O envio decorre do projeto Gen4Olive, financiado pela União Europeia, que congregou stakeholders como o Ministério da Agricultura, Pesca e Alimentação da Espanha, o Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Trata-se, nas palavras de Morello, de uma verdadeira pedra angular: nunca antes uma espécie lenhosa cultivada havia sido arquivada em Svalbard, cuja coleção tradicionalmente concentra espécies herbáceas.
Juan Antonio Polo, responsável pela Tecnologia Olearia no COI, também enfatizou um ponto jurídico relevante: a oliveira não está listada nas culturas cobertas pelo Tratado Internacional sobre Recursos Fitogenéticos para Alimentação e Agricultura (ITPGRFA). Esse Tratado estabelece mecanismos multilaterais de troca de material genético entre bancos e programas agrícolas, e a ausência do olival dessa lista coloca desafios e abre precedentes sobre os critérios de inclusão de novas culturas em sistemas de depósito internacional.
Do ponto de vista estratégico, a ação marca um redesenho silencioso das fronteiras invisíveis da conservação. Arquivar germoplasma de oliveira em Svalbard significa transferir uma parte dos alicerces da segurança alimentar e cultural do Mediterrâneo para um cofre que é, por definição, um seguro contra riscos planetários. É também um sinal de que a tectônica de poder entre preservação genética e políticas agrícolas exige instrumentos mais flexíveis e inclusivos.
Na prática, o depósito em Svalbard não substitui estratégias in loco de conservação e manejo — que continuam cruciais para manter populações vegetativas vivas e adaptativas —, mas oferece uma camada adicional de resilência. É um lance preventivo, calculado a partir da compreensão de que, no grande tabuleiro das mudanças climáticas e das pressões antropogênicas, salvar variedades tradicionais e espécies silvestres é preservar possibilidades futuras de adaptação e alimentos.
Em suma, a entrada das sementes de oliveira no cofre ártico é mais do que um feito técnico: é um gesto diplomático e estratégico que coloca o olival mediterrâneo sob a guarda de uma infraestrutura global de preservação. Um movimento que, assim como um bom xeque de abertura, projeta consequências para a governança de recursos genéticos nas próximas décadas.



















