Quatro anos após o início da invasão em grande escala, a tensão estratégica que redesenha linhas de influência na Europa permanece intacta. Em uma viagem simbólica e calculada, os principais líderes da UE chegaram de trem a Kiev para reafirmar um compromisso que combina assistência imediata e planejamento político de longo prazo.
O presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, sintetizou a leitura europeia nas redes: “Quatro anos de uma guerra de agressão injusta”. A imagem do comboio que leva os governantes até a capital ucraniana funciona como uma jogada pública no tabuleiro diplomático — destinada a enviar uma mensagem simultaneamente ao governo de Kiev, à população ucraniana e ao Kremlin.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, observou que esta é a sua décima visita desde o início do conflito. Em seu comunicado, sublinhou o apoio financeiro e militar europeu durante “este inverno rigoroso” e reiterou que a Europa não abrirá mão até que a paz seja restabelecida: “Paz nas condições da Ucrânia”. É uma formulação que traduz, num só gesto, solidariedade e a firme defesa da soberania ucraniana como alicerce para qualquer estabilidade futura.
Do lado russo, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, reafirmou a narrativa oficial: a chamada “operação militar especial” prossegue até que “todos os objetivos” sejam alcançados, segundo a agência RIA Novosti. Peskov enfatizou como objetivo prioritário a segurança das populações do leste ucraniano — fraseologia que Moscou usa para manter legitimidade interna enquanto projeta continuidade da campanha.
Em contraponto estratégico, os presidentes da Comissão e do Conselho Europeu, juntamente com a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, emitiram uma declaração conjunta. Nela, a UE não só confirma o apoio imediato, mas já trabalha na arquitetura do pós-conflito: garantias de segurança sólidas e críveis para evitar futuras agressões, mecanismos de responsabilização e instrumentos financeiros para a reconstrução.
Entre as medidas anunciadas constam a criação de um Tribunal especial para o crime de agressão contra a Ucrânia e a constituição de uma Comissão internacional de reparações, ambas a serem enquadradas no âmbito do Conselho da Europa. Trata-se de movimentos jurídicos e diplomáticos que visam fixar precedentes e criar custos políticos e econômicos para a Rússia caso persista a escalada.
Em termos de estratégia global, a mensagem é dupla: apoio contínuo da UE e da NATO enquanto a Ucrânia resiste, e preparação de um terreno jurídico e de segurança para a reconstrução e integração europeia futura. A afirmação de que “o futuro de uma Ucrânia segura e próspera é na União Europeia” não é apenas retórica; é um movimento de longo prazo que tenta consolidar alianças e fundamentos institucionais.
Como analista, observo neste quadro a combinação de tática e estratégia: gestos públicos que fortalecem a moral e simultaneamente constroem instituições que tornarão caros futuros reveses. No grande tabuleiro, cada visita, cada declaração e cada proposta jurídica é um movimento que busca alterar a tectônica de poder, mantendo, porém, os alicerces frágeis da diplomacia em constante reparo.






















