Por Marco Severini — O que à primeira vista parece saída de uma fábula urbana — ladrões atacando pilhas de doces como se fossem tesouros — revela um movimento mais amplo e calculado no tabuleiro do crime varejista britânico. Na Inglaterra, supermercados e minimarkets passaram a proteger com chaves e embalagens blindadas as barras e caixas de chocolate, convencidos de que não se trata mais de furtos oportunistas, mas de operações encomendadas para revenda.
A rede Sainsbury’s confirmou ter colocado os produtos mais visados em vitrines trancadas, com as barras Dairy Milk de 2,60 libras (cerca de 3 euros) sob chave em uma filial londrina. Para gestores de loja e autoridades, a simples guloseima transformou-se em mercadoria estrategicamente atraente para redes de reciclagem ilegal.
O Heart of England Co-op — que opera 38 estabelecimentos nas West Midlands, no Warwickshire, no Leicestershire e no Northamptonshire — contabilizou perdas significativas: no ano passado, os furtos de chocolate custaram ao grupo 250 mil libras (aproximadamente 286 mil euros). Segundo a administração, o produto foi o item mais subtraído em 2024, sendo superado apenas pelo álcool em 2025.
O diretor-executivo Steve Browne descreveu à BBC o roubo de chocolate como um “problema enorme”. Relatou casos em que um único indivíduo podia causar perdas de milhares de libras por semana, simplesmente esvaziando prateleiras que chegavam a valer 500 libras. Para conter a sangria, o grupo investiu cerca de 3 milhões de libras (cerca de 3,5 milhões de euros) em medidas de segurança e prevenção.
Nos pontos de venda independentes a dinâmica é semelhante. Sunita Aggarwal, responsável por dois minimarkets em Leicester e Sheffield, relata que clientes entram e levam caixas inteiras de chocolate. Identificando uma escalada no comércio ilegal, ela instalou mais de 30 câmeras de circuito fechado e adotou tecnologia de IA para identificar suspeitos, mantendo registros fotográficos dos tacionadores capturados no caixa.
Para minimizar perdas, a equipe de Aggarwal passou a preencher as prateleiras apenas parcialmente e deixou de promover o chocolate em posições de fácil acesso no fim dos corredores — mudanças táticas que lembram um ajuste de peças no tabuleiro, onde se sacrifica alcance por defesa.
Em Tenby, no País de Gales, a comerciante Fiona Avenal Malone estima perdas semanais entre 200 e 300 libras (230–350 euros) devido a furtos. “Exponíamos uma linha inteira de barras e, de repente, restava apenas uma”, disse, descrevendo a frustração comum entre varejistas.
Paul Cheema, proprietário da rede Malcom’s em Coventry, vai direto ao ponto: “O chocolate é a nova senha do crime organizado”. Segundo ele, itens como lâminas, queijo e café já passaram por picos de furto; hoje, mercadorias são levadas sob encomenda para alimentar mercados paralelos.
O relatório anual sobre criminalidade do setor varejista no Reino Unido confirma uma tendência preocupante que obriga redes e pequenos comerciantes a repensarem os alicerces da segurança e do projeto comercial. A resposta tem sido um redesenho das práticas de exposição, investimento em tecnologia e um endurecimento das medidas físicas — movimentos defensivos que, no xadrez da estabilidade social e econômica, indicam que a linha entre perda e lucro está se tornando ainda mais sensível.
Enquanto isso, a tensão entre custo de proteção e margem de venda permanece uma equação difícil para quem atua no varejo. Em escala macro, o fenômeno pede diagnóstico e coordenação: sem resposta integrada entre autoridades, redes e sistema de justiça, o mercado continuará a recompor suas peças sob a pressão de uma tectônica de poder que reconfigura, silenciosamente, onde repousam os bens considerados triviais — e, paradoxalmente, valiosos.






















