Por Marco Severini — Em um ato que reconfigura, ainda que sutilmente, as linhas do poder interno dos Estados Unidos, o estado da Flórida procedeu com a execução de Melvin Trotter, 65 anos, por meio de injeção letal. A sentença foi cumprida às 18h15 locais (23h15 GMT) na prisão estadual de Raiford, no norte da Flórida. Trata-se da quarta execução nos Estados Unidos neste ano e da segunda somente naquele estado.
Trotter havia sido condenado em 1987 pelo assassinato, em 1986, de Virgie Langford, proprietária de um pequeno mercado, 70 anos, morta com facadas durante um assalto à mão armada. Após quase quatro décadas no corredor da morte, sua pena foi finalmente executada.
Os números mais amplos colocam esse episódio num tabuleiro maior: em 2025, 19 pessoas receberam injeção letal na Flórida. Conforme levantamento do Death Penalty Information Center (DPIC), outras execuções no estado estavam programadas para 3 e 17 de março, além de calendários de aplicação da pena em outros estados — entre eles, uma execução marcada para 11 de março no Texas e outra em 12 de março no Alabama, esta envolvendo um detento de 75 anos que usa cadeira de rodas.
O contexto político é determinante. O governador republicano Ron DeSantis assinou mais sentenças de morte do que qualquer antecessor desde a reintrodução da pena capital nos EUA, em 1976, solidificando uma posição executiva que atua como um movimento decisivo no tabuleiro eleitoral e institucional.
Em 2025, os estados norte-americanos completaram 47 execuções — o número mais alto desde 2009, quando houve 52. Do total do último ano, 39 foram por injeção letal, três por pelotão de fuzilamento e cinco por hipóxia por nitrogênio, um método que provoca sufocamento ao bombear o gás por meio de uma máscara. Especialistas das Nações Unidas denunciaram o uso do nitrogênio como um procedimento cruel e desumano.
Hoje, a pena capital encontra-se abolida em 23 dos 50 estados; outros três (Califórnia, Oregon e Pensilvânia) mantêm moratórias formais sobre sua aplicação. No plano federal e simbólico, o presidente Donald Trump manifestou apoio público à pena de morte e, segundo registros, no primeiro dia de seu mandato pediu a ampliação de seu uso para crimes considerados mais hediondos.
Como analista, observo esse desenrolar com a calma de quem lê um mapa de fronteiras em mutação: a retomada de execuções e a adoção de métodos controvertidos representam um redesenho de fronteiras invisíveis entre o poder executivo, o judiciário e a opinião pública. É um movimento que revela os alicerces frágeis da diplomacia interna e a tectônica de poder entre estados que avançam e aqueles que se retraem diante do consenso internacional.
Em termos estratégicos, cada assinatura executiva e cada procedimento adotado configuram não apenas uma resposta penal, mas um gesto de força institucional que reverbera em relações exteriores e em compromissos de direitos humanos. Como num jogo de xadrez, as autoridades dispõem peças que, ao moverem-se, obrigam o tabuleiro inteiro a reagir — e a comunidade internacional observa as novas coordenadas dessa partida.
Este episódio, portanto, ultrapassa a história individual de um condenado: insere-se numa conversa mais ampla sobre justiça, poder e a arquitetura normativa que a sustenta nos Estados Unidos contemporâneos.






















