Por Marco Severini — Em um discurso extenso sobre o Estado da União, o presidente Trump fez um conjunto de afirmações que foram submetidas ao escrutínio do fact-checking pela grande imprensa dos Estados Unidos. A verificação da CNN destaca discrepâncias relevantes entre os proclames e os dados públicos, revelando um cenário em que retórica e realidade ocupam posições distintas no tabuleiro da narrativa política.
Primeiro ponto em análise: os supostos investimentos recordes. Trump declarou: “Em 12 meses, obtive compromissos de mais de 18 trilhões de dólares vindos de todo o mundo”. Em contraponto, o site oficial da Casa Branca listava cerca de 9,7 trilhões de dólares em “anúncios principais de investimento” durante seu mandato. Além disso, uma análise detalhada da CNN, publicada em outubro, concluiu que a Casa Branca incluiu milhares de bilhões em compromissos vagos relacionados a “comércio bilateral” ou “troca econômica”, e não necessariamente em aportes diretos e concretos no solo dos Estados Unidos. A diferença entre promessa e execução permanece um ponto crucial — como numa abertura de xadrez, onde um lance aparentemente amplo não garante controle efetivo do centro do tabuleiro.
Sobre a inflação, Trump afirmou ter recebido do governo anterior uma inflação em níveis recorde, atribuindo ao ex-presidente Biden e a seus aliados no Congresso “a pior inflação da história do nosso país”. O exame dos números desmonta essa narrativa simplista. O índice anual de inflação no último mês completo sob Biden (dezembro de 2024) era de 2,9%; no mês da posse de Trump (janeiro de 2025) era de 3,0%; e o mais recente (janeiro de 2026) registra 2,4%. O pico recente ocorreu em junho de 2022, quando a inflação chegou a 9,1% — o maior em 40 anos —, mas ainda distante do ápice histórico de 23,7% em 1920. Em suma: embora a inflação tenha sido um desafio, atribuí-la como “a pior da história” não resiste ao exame cronológico e estatístico.
No campo da economia, Trump declarou que herdou uma “economia estagnada” que hoje “rugiria como nunca”. Medindo-se por números agregados, os fatos atestam um quadro mais moderado. A economia dos EUA cresceu 2,2% em 2025 — taxa inferior à registrada em qualquer ano da presidência de Biden, e abaixo dos 2,8% de 2024. O shutdown do outono de 2025 provavelmente pressionou a expansão no fim do ano. O mercado de trabalho também sentiu variações: a taxa de desemprego subiu de 4,0% em janeiro de 2025 para 4,3% em janeiro de 2026. Já o índice de preços ao consumidor mostrou queda do ritmo anual de 3,0% (jan/2025) para 2,4% (jan/2026). Há, portanto, elementos positivos a serem reconhecidos — mas não o sinal inequívoco de um boom econômico arrebatador.
Por fim, quanto aos cortes fiscais apresentados como os maiores da história, a análise jornalística leva em conta o conteúdo do pacote aprovado: ele incluiu alterações permanentes e temporárias no código tributário, mencionando, entre outras medidas, a eliminação de tributos sobre gorjetas e horas extras. Ainda que contenha mudanças significativas, classificá-lo categoricamente como o maior corte fiscal da história requer comparações mais amplas com reformas anteriores, incluindo impacto estrutural e temporal dos benefícios fiscais.
Como analista, observo que estamos diante de uma técnica política recorrente: o redesenho retórico de conquistas para consolidar domínio simbólico sobre a agenda pública. No plano estratégico, é preciso separar o valor dos gestos — anúncios, compromissos e slogans — da solidez dos alicerces econômicos e institucionais. A diplomacia da informação exige essa distinção: não basta ocupar o centro do tabuleiro retórico; é preciso transformar movimentos em propriedades duráveis no mapa da realidade.
Em suma, o fact-checking revela que várias das afirmações do presidente carecem de respaldo completo nos dados públicos. Há méritos reconhecíveis em alguns indicadores, mas a narrativa de transformações abruptas e sem precedentes encontra limites quando confrontada com estatísticas e definições históricas.






















