Marco Severini — Em um movimento que reverbera como um lance estratégico no tabuleiro europeu, o presidente ucraniano Zelensky agradeceu formalmente aos líderes da União Europeia pela aprovação de um pacote de ajuda de 90 bilhões de euros destinado à Ucrânia. O gesto foi destacado em mensagem publicada na rede X, onde o chefe de Estado sublinhou que se trata de “outro passo importante para uma real garantia financeira da nossa segurança e resiliência no decorrer de dois anos”.
Zelensky mencionou nominalmente a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o primeiro-ministro português António Costa, a presidente do Parlamento Europeu Roberta Metsola e “todos os líderes da UE” que tornaram possível o pacote. “Ontem, o presidente do Parlamento Europeu assinou um pacote legislativo para um empréstimo de apoio à Ucrânia de 90 bilhões de euros”, recordou. Para o presidente, é essencial que essa decisão funcione para a Ucrânia “da forma mais rápida e eficaz possível” — uma necessidade que ultrapassa a economia e toca na sustentação do esforço de guerra e da reconstrução.
No plano político-diplomático, a administração ucraniana segue numa tentativa de consolidar um eixo de apoio ocidental robusto, enquanto procura fechar brechas internas e externas de influência russa. Em entrevista ao jornal La Repubblica, o conselheiro presidencial Mikhailo Podolyak fez observações duras sobre a natureza do que chamou de “mundo russo”: “É um mundo terrível dominado pela violência; a pessoa sem direitos pode ser despedaçada por um Estado autoritário”.
Podolyak insistiu que a escolha da Ucrânia é claramente pró-europeia e advertiu sobre a necessidade de medidas mais amplas contra a propaganda russa. “As restrições à propaganda russa devem ser totais, não apenas na Ucrânia e não apenas durante nossas eleições: os vetos à propaganda filorussa devem ser introduzidos em toda a Europa”, afirmou. Segundo ele, tolerar ou aceitar esse tipo de influência seria pavimentar o caminho para novos conflitos e invasões — um cálculo de risco que, na linguagem da Realpolitik, altera a tectônica de poder do continente.
Ao ser questionado sobre a confiabilidade da Itália e da premiê Giorgia Meloni como parceiras políticas e militares, Podolyak sinalizou confiança: “Sem dúvida”. Contudo, apontou a necessidade de conversas mais céleres sobre interferências russas nos assuntos soberanos europeus — sobretudo a penetração de capitais e redes de influência em partidos políticos e movimentos sociais, incluindo na própria Itália.
No plano militar, as frentes continuam ativas. Autoridades ucranianas relataram ataques com drones Shahed que atingiram infraestruturas críticas e de transporte nos distritos de Mykolaiv e Voznesenskyi, na região de Mykolaiv. O chefe da administração regional, Vitaliy Kim, informou via Telegram que as incursões envolveram drones Shahed-131/136 e que, apesar dos danos materiais, não houve vítimas registradas. A comunidade de Ochakiv também foi atacada dias antes com drones FPV, igualmente sem registro de baixas humanas, segundo as mesmas autoridades.
É importante notar que a cobertura original inclui menção a um alerta da administração dos Estados Unidos sobre ataques ucranianos a infraestruturas petrolíferas russas no Mar Negro; entretanto, o trecho disponível ao público foi truncado, e não há detalhes adicionais confirmados nessa fonte específica. Esse ponto, por sua sensibilidade estratégica, exige verificação adicional antes de qualquer interpretação conclusiva.
Como analista, vejo nessa conjunção de decisões financeiras, apelos políticos e ações militares um redesenho de fronteiras invisíveis: a Europa reforça os alicerces da segurança ucraniana com recursos e legislação, enquanto Kyiv pressiona por um cerco informacional à propaganda russa. No tabuleiro, cada movimento — econômico, legislativo ou militar — procura limitar as linhas de ação de Moscou e preservar a integridade do espaço europeu. Resta observar como serão coordenadas as próximas jogadas diplomáticas entre Washington, Bruxelas e Kyiv para transformar a assistência em vantagem estratégica duradoura.






















