Por Giulliano Martini
Apuração in loco e cruzamento de fontes — 23 de fevereiro de 2026
O número de inscritos nas universidades italianas cresceu 19% na última década, alcançando mais de 2,3 milhões de matriculados. O dado, divulgado pelo quinto relatório do Observatório Mheo, revela um aumento geral, mas esconde uma realidade fragmentada: a expansão não foi homogênea entre regiões nem entre tipologias de ateneo.
Os números mostram trajetórias distintas. As instituições estatais registraram um acréscimo de 30,9% em comparação a 2015, enquanto as não estatais cresceram 18,9%. O elemento mais incisivo do relatório é, contudo, a escalada das universidades telemáticas, cujo total de inscritos saltou impressionantes 460,5% ao longo dos últimos dez anos. Essa explosão aponta para uma mudança estrutural na demanda por formação: há mais procura por flexibilidade e por cursos compatíveis com trajetórias profissionais em curso.
O mapa regional evidencia um país a duas velocidades. O Nord consolida e amplia seu papel de locomotiva. A Lombardia lidera com +15% de inscritos, seguida pela Emilia-Romagna (+22%) e pelo Vêneto (+16%). Crescimentos mais modestos aparecem no Trentino-Alto Adige (+4%) e no Friuli Venezia Giulia (+3%). O Lazio registra uma dinamica positiva de +10%; a Toscana permanece estável.
O quadro muda radicalmente no Mezzogiorno, que apresenta recuos significativos. A Campânia perdeu 12% dos inscritos, a Puglia 25%, a Calábria 16% e a Basilicata 25%. O Abruzzo acusa -24%, o Molise -2%, a Sicília -6% e a Sardenha -9%. Em valores absolutos, a Lombardia soma 37 mil universitários a mais que há dez anos; a Emilia-Romagna, 31 mil. A Campânia, por outro lado, registra uma perda de 21 mil inscritos.
Esses dados não se explicam apenas por flutuações conjunturais: refletem dinâmicas demográficas e migratórias profundas. A coorte etária entre 19 e 24 anos está em contração, e projeções para 2025–2080 indicam declínio adicional. Em parte, o crescimento global de matrículas tem compensado a redução da base demográfica; no médio prazo, contudo, o sistema de istruzione superiore terá de lidar com uma base potencial mais reduzida.
A expansão das universidades telemáticas é, nesse contexto, uma resposta adaptativa: atraem estudantes trabalhadores e faixas etárias mais amplas, mitigando o impacto do declínio demográfico. Resta a questão — apontada pelo relatório — da qualidade da offerta formativa e da distribuição territorial dos corsi: enquanto algumas regiões consolidam vínculos fortes entre universidades e mercado de trabalho local, outras perdem massa critica e enfrentam risco de desertificação accademica.
Do ponto de vista econômico e ocupacional, o deslocamento do baricentro universitário para as regiões mais dinâmicas reforça o laço entre formação superior e mercado de trabalho local. A consequência prática é dupla: centros do Norte ampliam capital humano e attrattività; o Sul perde potencial produtivo e sofre êxodo dos jovens.
O relatório Mheo, lido aqui com rigor técnico, deixa três sinais claros: 1) expansão acumulada em uma década (+19%); 2) polarização Norte–Sud; 3) transformação no modelo de ensino com a explosão das telemáticas (+460,5%). São fatos brutos que reclamam políticas coordenadas — desde incentivos à permanência estudantil no Mezzogiorno até padrões de qualidade nacional para cursos a distância — para evitar que a desigualdade territorial se torne irreversível.
Apuração, cruzamento de dados e comparação com séries históricas foram a base desta reportagem; qualquer interpretação adicional exige decisões políticas e planos de ação calibrados às evidências.






















