Berlim reafirmou com clareza sua resistência a qualquer tentativa de tomada de controle agressiva por parte da UniCredit sobre o banco alemão Commerzbank e manteve a posição contrária à criação de uma dívida comum europeia. Em entrevista concedida em 23 de fevereiro, o ministro das Finanças, Lars Klingbeil, deixou explícito que o governo federal não aprovaria um aumento do capital controlado pela instituição italiana destinado a assumir o comando do banco germânico.
Na leitura do executivo alemão, o desenho de soberania financeira é um componente do motor institucional da Alemanha: após décadas de disciplina orçamentária e controle rígido do endividamento público, não faz sentido transferir a calibragem dessa alavanca para uma instância supranacional sem salvaguardas claras. “A estratégia do governo federal permanece inalterada: apoiamos a independência do Commerzbank e oferecemos nosso suporte”, afirmou Klingbeil.
O ministro frisou que a oposição é particularmente motivada pelas características da ofensiva da UniCredit, que hoje detém 26% do Commerzbank: “O que vimos por parte da UniCredit foi pouco amistoso. Trata-se das modalidades e do approach. Também o governo anterior rejeitou essa operação e eu compartilho dessa posição”. A parcela detida pela instituição italiana encontra-se ligeiramente abaixo do limiar definido pelo Banco Central Europeu para a ocorrência de ofertas públicas de aquisição obrigatórias.
Curiosamente, a postura restritiva de Berlim em temas de integração financeira contrasta com o ativismo político observado nos últimos meses: o chanceler Friedrich Merz, inclusive em diálogo com a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, apoiou reformas que ampliem a responsabilidade e a capacidade econômica da União Europeia. Ainda assim, quando a discussão toca o setor bancário e a preservação da independência de instituições estratégicas, o governo alemão adota um tom conservador.
Os números do Commerzbank reforçam a narrativa de um banco em boa forma: em 2025 apresentou resultados recordes — lucro líquido de €2,6 bilhões (+13%), receitas de €12,2 bilhões (+10%) e resultado operacional de €4,5 bilhões (+18%). Indicadores de capital e eficiência também mostram robustez: CET1 a 14,7%, RoTE em 10% excluindo reestruturações, índice cost-income em 57% (-2 pp) e retorno de capital aos acionistas estimado em €2,7 bilhões, com dividendo proposto de €1,10 por ação.
Para investidores e conselhos de administração, a situação se assemelha a uma peça de engenharia: há forças de mercado tentando ajustar o desenho da indústria e há freios fiscais e políticos que calibram até onde essas mudanças são permitidas. A posição do governo alemão atua como um controlador de torque, preservando o eixo central do sistema bancário regional.
Em síntese, Berlim fecha a porta a uma escalada hostil da UniCredit sobre o Commerzbank e reitera desconfiança quanto a soluções que implicam uma dívida comum europeia. O impasse mantém o mercado em atenção redobrada: a evolução dependerá agora das decisões estratégicas dos acionistas e de eventuais movimentos políticos que possam alterar o quadro de restrições.






















