Por Stella Ferrari — O decreto Milleproroghe aprovado com voto de confiança na Câmara (177 a favor, 93 contra e 3 abstenções) reconfigura uma série de medidas de caráter administrativo e social que afetam o funcionamento imediato do setor público e saúde, além de instrumentos de política económica. A aprovação confirma disposições que visam mitigar riscos de escassez de pessoal e impedir aumentos automáticos de penalidades, mantendo a estabilidade enquanto seguem debates legislativos sobre reformas mais estruturais.
Entre os pontos centrais está a prorrogação, para 2026, da possibilidade de os médicos e dirigentes sanitários permanecerem em serviço — por adesão voluntária — até os 72 anos, medida que não alcança docentes universitários. Em paralelo, foi renovado até 31 de dezembro de 2026 o scudo penale, limitando a responsabilização dos profissionais de saúde aos casos de culpa grave em contextos de carência de organico — um instrumento nascido na pandemia e posteriormente alargado.
Em matéria de organização territorial e serviços, a definição dos Livelli Essenziali di Prestazione (LEP) — pedra angular para a implementação da autonomia diferenciada — foi adiada até o final de 2026, ampliando o prazo para instruções técnicas e negociações entre níveis de governo.
No campo das finanças de trânsito, confirma-se para 2026 o bloqueio do ajuste bienal das sanzioni del Codice della Strada, evitando o aumento automático de 1,8% dos valores das multas. Tratase de uma medida de contenção de custos para os cidadãos, com impacto marginal nas receitas imediatas do erário.
Medidas de estímulo ao emprego e às empresas mantêm caráter temporário e calibrado: os bonus para contratações de jovens under35 e nas ZES foram prorrogados até 30 de abril, mas reduzidos para 70% da vantagem anterior; o bonus mulheres permanece até 31 de dezembro de 2026; e o fundo operacional para as PMI segue ativo até o final do ano.
Entre adiamentos administrativos relevantes, a obrigação de contratar apólice de seguro para quem gere recursos públicos foi postergada para 2027, preservando, por ora, a possibilidade de sujeição à jurisdição da Corte dei Conti. A mobilidade extraordinária dos dirigentes escolares foi ampliada para o ano letivo 2026/27, garantindo margem de manobra na gestão de quadros escolares.
Um emendamento dos relatores destinou 2 milhões de euros às rádios privadas para a conversão digital de arquivos multimídia, sinalizando atenção à preservação cultural e à transição tecnológica de canais locais.
Durante o percurso parlamentar, diversas propostas que geraram debate ficaram de fora do texto final: a tentativa da Lega de modificar prazos da rottamazione quater, a reabertura do condono 2003 (considerada inadmissível) e a proposta de adiar a taxa de 2 euros sobre pequenos pacotes extra‑UE. A iniciativa de Forza Italia para suspender essa taxa obteve o apoio do governo via ordine del giorno, enquanto a proposta de restaurar a Opzione Donna não prosperou. A Lega também pleiteou o adiamento até 2027 do aumento de tributação sobre criptoativos.
Em síntese, o decreto atua como uma espécie de recalibragem temporária — o motor da política pública gira em marcha reduzida para garantir continuidade e evitar rupturas, enquanto a legislatura mantém a agenda de reformas em análise. Do ponto de vista da estratégia econômica, trata‑se de medidas de contenção e flexibilidade operacional que priorizam a estabilidade administrativa sobre transformações estruturais imediatas.






















