Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha linhas de influência no tabuleiro europeu, o eurodeputado Roberto Vannacci, ex-vice-secretário da Lega e fundador de Futuro Nazionale, formalizou sua adesão ao grupo Europa delle Nazioni Sovrane (Esn) do Parlamento Europeu, recebendo as boas-vindas do copresidente René Aust, da AfD. A incorporação italiana altera a cartografia das forças de direita na União Europeia, ao sobrepor-se de forma nítida à geografia doméstica italiana.
Desde o início da legislatura, a direita europeia tem se apresentado fragmentada em pelo menos três pólos com representação italiana: o ECR, onde se situa Fratelli d’Italia; o grupo dos Patriotas para a Europa (PfE), com a Lega; e agora o Esn, que acolhe Futuro Nazionale. Se esses três agrupamentos se unissem, segundo cálculos políticos, chegariam a ameaçar a centralidade do Partido Popular Europeu (PPE), pilar tradicional do poder comunitário. Contudo, permanecem fissuras significativas, amplificadas pela guerra na Ucrânia, que sulcou divisões ideológicas e estratégicas entre as direitas.
Na memória da Assembleia está o episódio em que Vannacci, então na Lega, foi destituído da vice-presidência do grupo PfE por iniciativa do Rassemblement National, primeira delegação do agrupamento. Naquele momento, o RN, com seu projeto de ‘dédiabolisation’ e ambição eleitoral em França, foi decisivo para excluir a AfD do nascente grupo da direita — e considerou tanto Vannacci quanto a AfD elementos politicamente inconvenientes para sua estratégia de mainstreaming.
Hoje, porém, AfD e Vannacci ocupam o mesmo espaço no Esn, que é o grupo mais à direita do hemiciclo e também o menor em representação. A AfD permanece como componente principal, mas o Esn agora reúne delegações de oito países da UE — duas a mais que a exigência mínima para constituição de um grupo em Estrasburgo.
Além da AfD e de Futuro Nazionale, o Esn conta com: os poloneses da Konfederacja; os húngaros do Mi Hazánk Mozgalom, originários de uma cisão do Jobbik; os tchecos do Svoboda a přímá demokracie (liderados por Tomio Okamura); os lituanos do Tautos ir teisingumo sąjunga; os franceses do Reconquête! de Éric Zemmour; os búlgaros do Revival; e os eslovacos do Hnutie Republika.
Em Bruxelas, René Aust declarou em conferência de imprensa que é ‘um dia esplêndido para nosso grupo’ e sublinhou que, após intensas discussões sobre pontos comuns e divergências, as diferenças com Vannacci seriam mínimas, abrindo espaço para sua integração plena.
Vannacci apresentou-se como o porta‑bandeira de uma direita ‘pura’, diferenciando-se da direita no governo — a administração de Giorgia Meloni — que, segundo ele, cede a compromissos e dilui posturas. Essa linha reflete uma estratégia típica de forças não responsáveis por cargos executivos: manter coerência ideológica sem a necessidade de negociar políticas de governo.
Do ponto de vista geopolítico e estratégico, trata‑se de um movimento de realinhamento mais do que de mera soma de assentos. A chegada de Vannacci ao Esn é sintomática da tectônica de poder que percorre os espaços de direita na Europa — um exercício de cartografia política onde alianças são redesenhadas segundo objetivos nacionais e táticas transnacionais. Resta observar se essa confluência conseguirá traduzir‑se em coordenação eficaz capaz de desafiar o centro do poder europeu ou se permanecerá como uma configuração de forças dispersas, vulnerável ao atrito interno e às pressões eleitorais nacionais.






















