Por Marco Severini — Com a calma austera de um movimento bem calculado no tabuleiro internacional, a Itália anunciou oficialmente a candidatura de Maurizio Martina para a chefia da FAO, a agência das Nações Unidas responsável pela agricultura e pela alimentação. A comunicação foi formalizada no âmbito do Conselho Agrifish em Bruxelas, por meio dos pronunciamentos do vice‑primeiro‑ministro Antonio Tajani e do ministro da Agricultura Francesco Lollobrigida.
Martina, hoje vice‑diretor‑geral da FAO, natural da província de Bérgamo e com 47 anos, transforma assim uma posição interna da organização em uma candidatura que abre as grandes manobras diplomáticas entre os 193 Estados membros e a própria União Europeia. O escrutínio decisivo está agendado para junho de 2027, quando a sucessão—após o término do mandato não renovável do atual diretor‑geral, o chinês Qu Dongyu—será decidida por maioria simples em votação secreta.
O anúncio governamental sublinha dois imperativos estratégicos. Primeiro, a necessidade de garantir à Itália um papel de relevo numa instituição que molda as políticas de segurança alimentar e cooperação agrária globais. Segundo, a vontade de transcender divisões políticas internas e trabalhar para uma convergência europeia em torno de uma única candidatura capaz de projetar liderança coletiva. Já se assinalam outros nomes de vulto — entre eles o irlandês Phil Hogan — mas a estratégia italiana busca o apoio unânime do continente, iniciativa também incentivada pelo Comissário Europeu para a Agricultura, Christophe Hansen, que apelou à unidade dos ministros.
O percurso de Maurizio Martina combina experiência política nacional e prática institucional internacional: ministro da Agricultura nos governos Letta, Renzi e Gentiloni, antes de migrar para a carreira diplomática em 2021, ele reúne tanto o conhecimento das políticas agrícolas europeias quanto a familiaridade com os corredores da FAO. Em sua resposta à proposta, Martina afirmou ter recebido a indicação com gratidão e enalteceu a exigência de coesão europeia como condição para enfrentar questões prementes — a crise de alimentos, as cadeias de abastecimento e a erradicação da fome.
No cenário doméstico, a candidatura obteve ampla adesão transversal: deputados do Partido Democrático destacaram o valor estratégico da escolha, e as principais organizações do setor agrícola — Coldiretti, Confagricoltura, CIA, Copagri, Legacoop e Associazione Italiana Coltivatori — manifestaram apoio público. Se eleito, Martina seria o décimo diretor‑geral desde a fundação da FAO, em 1945, um simbolismo que sublinha o momento de reposicionamento geopolítico em torno das políticas de alimentação e agricultura.
Como analista, observo que esta candidatura é uma movimentação de arquitetura diplomática: busca consolidar alicerces de influência europeia num terreno onde se desenham fronteiras invisíveis da segurança global. A partida até junho de 2027 será tanto técnica quanto política — um duelo de estratégias, alianças e promessas de governança sobre uma das questões mais sensíveis do nosso tempo: a garantia de alimento para populações vulneráveis. O resultado irá redesenhar, ainda que discretamente, a tectônica de poder na governança alimentar internacional.






















