Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes da Espresso Italia.
A campeã americana Lindsey Vonn falou publicamente pela primeira vez após o acidente sofrido na descida livre de Cortina. Em um vídeo extenso divulgado nas redes sociais, Vonn mostrou radiografias, descreveu os procedimentos médicos aos quais foi submetida e agradeceu de forma emocionada ao médico da seleção norte-americana, o Dr. Tom Hackett, a quem atribuiu a salvaguarda de sua perna.
O acidente provocou uma fratura complexa na tíbia, envolvendo também a cabeça do perônio (fíbula) e o platô tibial. “Praticamente tudo estava em pedaços”, disse a atleta, em tom contido. A gravidade do trauma desencadeou uma síndrome compartimental, condição em que o acúmulo de sangue e o inchaço elevam a pressão dentro de um compartimento muscular, ameaçando músculos, nervos e tendões de necrose.
Para reduzir essa pressão e evitar a perda de tecido — e possivelmente da própria perna — foi necessária uma cirurgia de emergência: uma fasciotomia. O procedimento durou cerca de seis horas. “O Dr. Hackett abriu ambos os lados da minha perna, permitindo que ela respirasse. Ele me salvou”, relatou Vonn, cuja voz carregou a gratidão e o peso do susto.
A campeã permaneceu internada por mais tempo do que o esperado devido a uma queda significativa dos níveis de hemoglobina, consequência das múltiplas intervenções e da perda de sangue. Vonn precisou de transfusão e descreveu dores intensas que foram difíceis de controlar. Ela agradeceu tanto às equipes médicas italianas quanto às americanas que a assistiram desde o primeiro momento.
No momento, Lindsey Vonn está alojada em um hotel, já fora do hospital, mas ainda dependente de cadeira de rodas: em Cortina, além da tíbia, Vonn também lesionou o tornozelo direito. A transição para as muletas deverá ocorrer apenas daqui a cerca de dois meses. A atleta prevê que “será necessário aproximadamente um ano para que todos os ossos consolidem”; depois, avaliará a retirada de material de síntese e uma nova cirurgia para reparar o ligamento cruzado anterior.
Mais do que o relato médico, a declaração de Vonn é uma pequena lição sobre como o esporte de alto rendimento convive com o risco físico extremo. Como observador da cena esportiva europeia e italiana, lembro que acidentes assim reverberam além da carreira individual: tocam treinamentos, segurança de pistas, gestão de eventos e a memória coletiva de uma modalidade. Vonn encerrou a mensagem sem arrependimentos, com a serenidade de quem entende o preço do risco: “É um golpe que eu teria evitado, mas a vida é assim: recebe-se o golpe e segue-se em frente. Farei o meu melhor”.
O caminho de recuperação será longo e técnico, mas também simbólico: trata-se de uma atleta cuja trajetória e identidade esportiva carregam ecos de gerações que viram no esqui não apenas competição, mas um modo de afirmar laços regionais e nacionais. A reconstrução, portanto, terá dimensões físicas, emocionais e históricas.
Este texto segue a linha editorial da Espresso Italia: ouvir a notícia, decantá-la e oferecer ao leitor uma leitura que conecta o fato esportivo a seus desdobramentos sociais e institucionais.




















