Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em um gesto que mistura memória da tradição e defesa do presente, Adriano Panatta saiu em defesa de Jannik Sinner diante das críticas virulentas vindas da imprensa espanhola após a eliminação do italiano em Doha. Em entrevista ao programa La nuova DS, na Rai 2, o ex-campeão ressaltou que a narrativa de «crise» em torno do número dois do mundo é precipitada e movida por interesses externos à análise fria do desempenho.
Panatta, vencedor do Roland Garros e da Copa Davis em 1976, reagiu com firmeza: “Sinner em crise? Quem diz isso? Essù, não exageremos!”. O ex-tenista lembrava não só a trajetória do jovem talento como também o contexto esportivo em que se formam avaliações públicas: derrotas pontuais — como a sofrida para Jakub Mensik nos quartos de Doha — são transformadas em narrativas absolutas por uma mídia ávida por definições fáceis.
O pano de fundo dessa reação é claro. Depois de perder a semifinal contra Novak Djokovic no Australian Open 2026 — um confronto que se estendeu por mais de quatro horas e terminou apenas no quinto set — Sinner viu ser amplificada a tese de que teria dificuldades em partidas longas. A imprensa ibérica foi além: apontou no jovem italiano um retrocesso frente à explosão de Carlos Alcaraz. Manchetes de jornais como o Marca chegaram a falar em “fundo do poço” e “fracasso” após a derrota no Qatar.
Para Panatta, porém, o julgamento é prematuro e influenciado por rivalidades regionais. “É lógico que agora eles escrevam essas coisas, e certamente fariam questão que fosse verdade, mas lamento desmenti-los: Sinner não está em crise”, afirmou. O antigo capitão de uma geração que carregou o tênis italiano no ombro conhece bem o peso da narrativa: os jornais muitas vezes celebram a ascensão de um rival nacional como forma de construir uma história.
Mais do que rebater críticas, Panatta colocou a discussão no terreno adequado. Para avaliar de fato a distância entre Sinner e Alcaraz, disse, será preciso aguardar os dois maiores testes do calendário: os torneios de preparação nas Américas e, sobretudo, o circuito de saibro europeu culminando no Roland Garros. “O tênis verdadeiro começa agora”, afirmou, referindo-se ao ciclo que testa consistência, adaptação e resistência — valores que historicamente definem carreiras de elite.
A observação de Panatta toca um ponto mais amplo: o papel dos meios na construção de crises esportivas. Nem toda derrota longa traduz fragilidade sistêmica; nem toda ascensão de um rival precisa ser lida como queda irreversível. A experiência histórica do ex-jogador, que viu e viveu ciclos de glória e queda, sugere prudência analítica. E, para ele, há motivo realista para otimismo quanto ao futuro de Jannik Sinner.
Assim, a defesa não é apenas emocional: é uma chamada à análise que privilegia torneios decisivos, rotações de superfície e contextos físicos — especialmente em uma temporada que promete ser definidora para a nova geração do tênis mundial.





















