No palco do Artemio Franchi, onde rivalidades regionais se confundem com identidades cívicas, a Fiorentina conseguiu um resultado de significado maior do que o placar sugere: vitória por 1-0 sobre o Pisa no derby toscano, com o gol decisivo de Kean aos 13 minutos. Não foi uma exibição de gala, mas uma lição de gestão de recursos e interpretação do contexto competitivo — elementos que, para além dos três pontos, podem definir uma reta final de temporada.
O episódio do gol sintetiza bem a narrativa do jogo. A jogada nasce de um cruzamento de Fagioli, segue por entre ruidos oscilantes da defesa visitante e termina com o antigo juventino posicionado onde um centroavante deve estar: a dois passos do gol. Não um obstáculo estético, mas uma finalização de atacante de ofício. A partir da tribuna — porque estava suspenso — o técnico Vanoli viu uma equipe aplicada e compacta. A opção por rodar na Conference League e escalar o time titular no campeonato mostrou-se, desta vez, eficiente na preservação de energias.
No primeiro tempo a Fiorentina controlou ritmos e espaços. A posse foi exercida com critério; as chances surgiram mais por construção do que por acelerações impulsivas. Fagioli assumiu a régia com personalidade, Brescianini deu suporte nos deslocamentos e Ndour tentou inserir-se em momentos de transição. Kean ainda teve na cabeça a chance de ampliar, após vencer um duelo aéreo com Caracciolo.
A reação do Pisa na etapa final alterou o roteiro. Hiljemark mexeu cedo, subiu o bloco e converteu o confronto em disputa mais física e menos fluida. Meister passou a criar problemas para Ranieri, Angori teve uma intervenção crítica cortada sobre a linha por Dodo, e Cuadrado desperdiçou um lance que poderia ter trazido alívio. O Franchi, sensível às oscilações do resultado, ficou tenso; a partida manteve-se em suspensão até o apito final. No acréscimo, Fazzini ainda teve a bola da tranquilidade mas bateu mal.
O desfecho é, em termos objetivos, um respiro para a Fiorentina: a equipe alcança 24 pontos e se junta a Cremonese e Lecce na 16ª posição, abrindo distância de nove pontos para Verona e para o próprio Pisa, que, com 15 pontos e sem vitórias na era Hiljemark, vê a zona de permanência tornar-se uma miragem cada vez mais distante. Mais do que a simples estatística, o triunfo oferece margem tática e psicológica para que a Viola dispute a salvezza com menos aflição.
Em perspectiva: a vitória no derby não resolve as contradições estruturais do clube nem garante tranqüilidade, mas reconfigura o cenário imediato. Em um campeonato onde recursos, calendário e escolhas de gestão pesam tanto quanto o talento individual, saber vencer partidas como esta — com pragmatismo, leitura de jogo e controle de esforço — pode valer tanto quanto um gol decisivo. Para o Pisa, a narrativa é inversa: a necessidade de mudança é urgente; para a Fiorentina, a oportunidade de transformar um fôlego em trajetória sustentável começa agora.






















