Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A esquiadora norte-americana Lindsey Vonn anunciou que deixou o hospital em decorrência do severo infortúnio sofrido durante as Olimpíadas de Milano Cortina. Em vídeo publicado nas redes sociais, a campeã explicou aos seguidores o estado atual de sua recuperação e fez um balanço sobre os procedimentos aos quais foi submetida após a queda em 8 de fevereiro, em Cortina d’Ampezzo.
Segundo Vonn, “vai levar cerca de um ano porque todas as ossas cicatrizem“. A atleta acrescentou que, depois desse período inicial de consolidação óssea, decidirá se retorna à sala de operações para remover as placas e “reparar meu crociato“, referência ao ligamento cruzado anterior (LCA), que sofreu danos no acidente.
O relato da atleta traz duas camadas de leitura. Na superfície, é o desdobrar de um episódio clínico: múltiplos procedimentos, estabilização da fratura com placas, e uma perspectiva de recuperação longa. Em segundo plano, trata-se da narrativa de uma esportista veterana que, mesmo diante de um trauma visível, opta por comunicar com clareza e compostura os próximos passos — gesto que tem impacto no imaginário público sobre risco, coragem e medicina do esporte.
Vonn disse estar aliviada por ter finalmente deixado o leito hospitalar. “Depois de quase duas semanas passadas quase imóvel, estou bem o suficiente para me transferir para um hotel. Ainda não fui para casa, mas é um passo enorme”, afirmou, agradecendo explicitamente ao Dr. Tom Hackett pela condução do tratamento. O reconhecimento público ao corpo médico destaca um componente central das grandes competições: a rede profissional que permite aos atletas afrontar riscos extremos.
Há, também, implicações para a própria Olimpíada de Milano Cortina e para o debate sobre segurança nas pistas. Acidentes de alta velocidade em modalidades alpinas reacendem perguntas sobre desenho de percursos, condições ambientais e protocolos de emergência — questões que tendem a ganhar voz toda vez que um nome de grande visibilidade é afetado.
Do ponto de vista pessoal e simbólico, a trajetória de Vonn é interlocutória: não se trata apenas da recuperação física, mas da gestão de uma carreira marcada por sucessos e por quedas que ajudaram a moldar sua imagem pública. A decisão sobre nova cirurgia para o ligamento cruzado será também uma decisão de gestão de carreira — e de identidade — sobre o que permanecerá da atleta após a reinvenção que a recuperação exige.
Nos próximos meses, o acompanhamento médico e as escolhas de reabilitação determinarão o horizonte de retorno às competições — se este existir. Enquanto isso, a mensagem de Vonn permanece pautada pela clareza e pela prudência: o caminho para recuperar a integridade óssea será longo, e o próximo capítulo só virá depois que o corpo der sinais inequívocos de que pode suportá-lo.
Em termos práticos, a notícia confirma o que os fãs temiam e, ao mesmo tempo, oferece um relato direto da protagonista. Em eventos de grande visibilidade como Milano Cortina, a experiência de Vonn funciona como um espelho: revela a fragilidade inerente ao esporte de alto rendimento e a complexa rede — clínica, técnica e simbólica — que o sustenta.





















