Apresento uma curadoria das novidades em livraria na Itália — romances, ensaios, reportagens e livros de investigação que, mais do que entreter, funcionam como um espelho do nosso tempo. Nesta seleção, as leituras dialogam com memória, identidade e as narrativas públicas que modelam o debate cívico.
Memória e democracia: Sentieri partigiani, de Paolo Malaguti
Partindo de uma subida de bicicleta ao Monte Grappa, Paolo Malaguti desenha, em Sentieri partigiani (Einaudi), um itinerário íntimo e preciso pela geografia da Resistência italiana. O livro não é apenas um relato de lugares — monumentos esquecidos, cipós que esconden lápides, avenidas de enforcamentos em Bassano del Grappa — mas um retrato crítico sobre como a memória é ensinada e vivida.
Com a ironia de quem conhece os corredores do colégio e a autoridade de quem leu os maiores testemunhos do século XX, Malaguti transforma o passeio em reflexão pedagógica: a Resistência como laboratório cívico, espaço para pensar a democracia, o valor da palavra e o papel do dissenso. O livro é, simultaneamente, diário de viagem, exercício de cidadania e uma pergunta persistente ao leitor — «O que teríamos feito nós?» — que funciona como um refrão moral ao longo do livro.
O laboratório de Caprera: O outro Garibaldi, de Virman Cusenza
Virman Cusenza apresenta um retrato pouco conhecido de Giuseppe Garibaldi, além da camisa vermelha e do mito risorgimentale. Em O outro Garibaldi (Mondadori), Caprera aparece não como retiro, mas como um experimento: uma fazenda-modelo, mecanização agrícola de vanguarda, um moinho inovador, e a plantação de quatorze mil vinhas. Garibaldi se revela agricultor, empreendedor e pensador prático — um homem que anotava a temperatura, a pressão atmosférica, a floração das colheitas, alternando a zappa à espada.
As anotações dos Diari agricoli — fonte central para esta biografia — resgatam um líder que pensava em família alargada, proteção animal (fundando inclusive sociedades de proteção) e modelos sociais antes de seu tempo. É a biografia que redesenha um herói, mostrando que o mito também se constrói no cotidiano e no método.
Do horror ao exame social: o caso Pelicot
Entre os lançamentos figura ainda uma obra de investigação sobre o chamado caso Pelicot, um episódio que reabriu feridas e interrogações sobre a violência contemporânea, a cobertura midiática e a construção de culpabilidade pública. Mais do que um relato policial, o livro busca decodificar as narrativas que circulam em torno do crime e suas reverberações culturais — a semiótica do viral, a fabrica de pânico e a responsabilidade das instituições.
É leitura que exige calma: a investigação convoca o leitor a reconhecer como o sensacionalismo pode transformar vítimas em espetáculos e a democracia em tribunal midiático. O trabalho jornalístico mapeia documentos, entrevistas e o roteiro oculto das reações sociais, oferecendo um reframe sobre o que entendemos por justiça e memória coletiva.
O novo ‘Alfabit’ e a língua em transformação
Fechando a seleção, chega às livrarias o novo ‘Alfabit’ da língua italiana — um guia que reflete as mudanças lexicais e culturais: da difusão de anglicismos ao debate sobre linguagem de gênero, passando pelas palavras que emergem com as redes e os novos modos de comunicação. Mais que um vocabulário, trata-se de um mapa para entender como a língua se adapta aos tempos e às pressões sociais: um manual para leitores que querem ler o presente pelas letras do idioma.
Por que ler estas obras?
Cada livro desta seleção funciona como um espelho cultural: há história que se reativa, biografias que reescrevem mitos e investigações que nos forçam a olhar o presente com lentes críticas. Como analista cultural, vejo nessas leituras um roteiro oculto da sociedade — episódios que, quando narrados com cuidado, nos devolvem pistas sobre quem somos e para onde vamos.
Nas prateleiras, portanto, não apenas entretenimento, mas diagnósticos e provocações. Ler hoje é participar do debate público; é aprender a decifrar os sinais. Escolha um caminho, suba a montanha ou sente-se à mesa de Caprera: a literatura italiana segue sendo um terreno fértil para pensar o nosso tempo.






















