Na manhã de quarta-feira, 25 de fevereiro, a casa de leilões Il Ponte Casa d’Aste apresentará em sua sede do Palazzo Crivelli (via Pontaccio, 12) em Milão um achado que parece saído de um roteiro histórico: um precioso manuscrito que fez parte da dote de Ippolita Maria Sforza (1445-1488). Trata‑se de um códice miniado de grande refinamento com a transcrição da primeira década do Ab Urbe condita de Tito Livio, avaliado entre 280.000 e 350.000 euros.
O reaparecimento deste volume, após séculos de silêncio, não é apenas um caso de conservação: é a reemergência de um testemunho físico da cultura e do Renascimento lombardo. Em uma cidade que neste ano celebra sua história e ambição, o leilão oferece a rara oportunidade de revalorizar um património esquecido e de reafirmar o papel de uma mulher cuja biblioteca foi — por muito tempo — sombra de mistério.
É significativo lembrar que a maior parte dos livros que a princesa levou do Castello Sforzesco para Nápoles, ao casar‑se com Alfonso d’Aragona em 1465, acabou dispersa; hoje, apenas três volumes são conhecidos com certeza. Por isso, este códice ressurge como testemunha privilegiada de uma das bibliotecas principescas mais ricas do Quattrocento, e também como prova documental do perfil humanista de uma das mulheres mais instruídas da sua geração.
Desde menina, Ippolita recebeu uma educação que desafiava os limites tradicionais: igual à dos irmãos, cultivou a prática da falcoaria e aprendeu latim, francês, espanhol e noções de grego. Mais do que colecionadora por ostentação, foi uma verdadeira bibliófila, que encomendava códices miniados guiada tanto pelo conteúdo quanto pela arte que os iluminava. Ao partir para Nápoles levou consigo, ao lado de jóias e roupas suntuosas, volumes que eram instrumentos vivos de memória, conhecimento e reflexão.
A composição da sua biblioteca — com Bíblias, textos devocionais e clássicos latinos como Tito Livio — reflete o cânone moral e cultural que informava as cortes do século XV. Não por acaso, obras como as de Livio figuram nos inventários de Ippolita e de Alfonso d’Aragona: leituras que moldaram não apenas gosto literário, mas também aptidões diplomáticas.
O legado intelectual de Ippolita Maria Sforza teve efeitos práticos. Sua finesse de pensamento e capacidade de mediação apareceram nas delicadas relações políticas entre Milão e Nápoles e na teia dos acontecimentos como a Congiura dei Pazzi. A sua amizade e colaboração com Lorenzo de’ Medici atestam uma atuação pública e influente. Em papel de procuradora dos Medici, participou de atos que reforçaram sua autoridade política e cultural — um papel que a distancia dos estereótipos limitantes sobre o espaço feminino na cultura renascentista.
Como crítica cultural, vejo este episódio como mais que um acontecimento de mercado: um manuscrito que retorna da penumbra age como um espelho do nosso tempo, convidando a um reframe sobre quem escreveu a história e quem a preservou. Em um cenário onde o patrimônio muitas vezes circula entre coleções privadas e instituições, o leilão em Milão coloca na vitrine pública a importância de proteger e reinterpretar objetos culturais.
O leilão no Il Ponte Casa d’Aste não só promete atração de colecionadores e historiadores, como também reacende o debate sobre a circulação de bens culturais, a memória feminina e o papel das bibliotecas pessoais como cenários de formação intelectual. Para os interessados em história do livro e do Renascimento, esta será uma oportunidade rara de contemplar — e possivelmente adquirir — um fragmento tangível da história europeia.
Seja como peça de coleção, seja como símbolo de um passado que insiste em voltar, o códice de Ippolita Maria Sforza chega ao leilão como cena final de um drama cultural que começa no século XV e encontra hoje novo público. Em tempos em que revisitar o passado é também reescrever o presente, este manuscrito convida a olhar além da superfície e a ler, nas suas páginas iluminadas, o roteiro oculto da sociedade renascentista.






















