Por Alessandro Vittorio Romano — Em tempos em que a narrativa pública costuma oscilar entre críticas afiadas e silêncios cautelosos, chega como uma brisa suave um gesto espontâneo que ilumina a imagem da saúde italiana. A irmã da campeã de esqui Lindsey Vonn, Karin Kildow, publicou um vídeo nas redes que rapidamente se tornou viral: a mensagem, bem-humorada e direta — “apague seus apps de namoro e vá direto a um pronto-socorro italiano” — celebrou o atendimento recebido por Lindsey no hospital Ca’ Foncello de Treviso, após a fratura sofrida durante a descida livre nos Jogos de Milão-Cortina.
O clipe de Karin Kildow reacende uma conversa que tem raízes profundas: a excelência técnica aliada a um acolhimento humano que faz parte do tecido cultural médico da Itália. Quem não deixou passar a mensagem em branco foi o infettivologo Matteo Bassetti, hoje diretor da Clínica de Doenças Infecciosas do IRCCS Policlinico San Martino, em Génova. Com seu tom entre a ironia afável e o orgulho contido, Bassetti lembra que este tipo de reconhecimento chega em um momento sensível para a saúde italiana, também carregado de tragédia — como no caso do pequeno Domenico, o menino de 2 anos que morreu em Nápoles após complicações num transplante cardíaco.
“É um messaggio positivo”, diz Bassetti, e eu acrescento: é como uma flor que brota em solo endurecido. Aplaudir que os profissionais daqui sejam não apenas competentes, mas até charmosos, é quase um adereço bem-humorado — e, como ressalta o médico, o que realmente importa é a competência. Ainda assim, confesso que a imagem do médico que combina habilidade técnica e presença humana tem algo de reconfortante, como o calor de um sol de outono que atravessa a janela do corredor de um hospital.
Bassetti recorda com firmeza que a formação italiana é reconhecida globalmente: “exportamos qualidade médica para o mundo”, afirma. É um ciclo que lembra as estações: sementes de conhecimento cultivadas nas universidades e centros clínicos que depois florescem em práticas adotadas além-fronteiras. E se o elogio vem de uma família como a Vonn, com visibilidade internacional, o eco alcança outros continentes — uma propaganda espontânea para o nosso sistema, cuja ética e atenção contínua ao paciente são destacados pelo infettivologo.
Não menos simbólica é a referência à série televisiva Cuori, sucesso recente na Rai 1, que mostrou ao grande público a dedicação e os dilemas dos profissionais de saúde. O ator Matteo Martari, conhecido pelo papel do professor Alberto Ferraris, aproveitou para comentar com leveza o vídeo de Karin Kildow, traduzindo a ficção em reconhecimento real: a imagem do hospital como espaço de cuidado e coragem.
Ao observar essa pequena onda de reconhecimento, penso na saúde como um ecossistema: há as raízes (escolas e formação), o caule (protocolos e organização) e as folhas visíveis ao público (o atendimento diário). Quando uma família estrangeira elogia o atendimento recebido, é como se alguém fosse colher um fruto maduro e dissesse ao mundo que a árvore vale a pena ser plantada.
Que esta narrativa gere mais do que aplausos isolados. Que inspire políticas que cuidem das pessoas que nos cuidam, da pesquisa que cultiva saberes e da empatia que sustenta todo o percurso de cura. E, por que não, que os elogios venham embalados em bom humor — afinal, um sorriso, assim como um gesto gentil, é também parte do tratamento.





















