Por Alessandro Vittorio Romano – A respiração da cidade às vezes revela fissuras: mesmo em um sistema concebido como universal, a máquina pública de cuidados mostra rachaduras que vão se alargando conforme a capacidade de pagamento dos cidadãos. O relatório “Quando i soldi non bastano – Il razionamento sanitario in Italia”, elaborado por Acli, Caf Acli, NeXt – Nuova economia per tutti e a Universidade de Roma Tor Vergata, com apoio de Comipa, Federcasse Bcc, Federazione Lombarda Bcc, Federazione Toscana Bcc e Iref, documenta que o acesso à saúde na Itália está hoje fortemente condicionado pela renda.
Baseada na análise de mais de 8 milhões de declarações de imposto (modelo 730) entre 2019 e 2024, a investigação revela um razionamento sanitario implícito: contribuintes com rendas mais elevadas declaram, em média, entre 4 e 5 vezes mais gasto do próprio bolso (excluindo tickets) do que os que estão nas faixas mais baixas. Em outras palavras, onde o serviço público falha — por longas listas de espera e lacunas nos cuidados não emergenciais —, quem tem recursos dirige-se ao setor privado, enquanto as camadas mais frágeis ficam para trás.
Os números pintam uma paisagem preocupante. Mantidas iguais as condições de saúde, os mais pobres gastam entre mil e dois mil euros a menos por ano em cuidados de saúde privados em comparação com os mais ricos. Cerca de 57% dos contribuintes do escalão mais baixo não declaram qualquer despesa privada com saúde; entre os idosos, a diferença é ainda mais pronunciada: 55-60% dos mais pobres não registram gastos privados, contra apenas 7-15% dos coetâneos mais abastados.
Na farmácia, a colheita também é desigual: a despesa média anual com medicamentos sobe de cerca de 278 euros no escalão mais baixo para mais de 415 euros no mais alto. Não se trata apenas da probabilidade de comprar fármacos, mas também do valor médio gasto. O relatório mostra que um aumento de renda nas faixas baixas acarreta um aumento proporcionalmente maior na despesa com saúde, sinalizando necessidades previamente não atendidas — as raízes de um conjunto de cuidados que nunca floresceram para todos.
A pandemia de Covid-19 atuou como um vento que ampliou as sombras: rendas altas recuperaram rapidamente os níveis de gasto pré-pandemia, enquanto os grupos vulneráveis, idosos e mulheres ainda não alcançaram a mesma recuperação. No mapa territorial, regiões com níveis essenciais de assistência (LEA) mais elevados conseguem oferecer melhor prevenção e serviços públicos, reduzindo o recurso forçado ao privado.
Como observou Saverio Mennini, chefe do Departamento de Programação do Ministério da Saúde, há “um problema de equidade no acesso” perceptível nas últimas duas décadas. É uma constatação que pede mais do que números: pede políticas que reavivem o pulmão público, restabeleçam a confiança e permitam que a saúde seja, de fato, um bem comum — não um produto que se compra conforme a colheita da fortuna.
Num país onde a paisagem muda com as estações, a esperança é que o próximo ciclo traga um sistema onde a prevenção e o cuidado sejam distribuídos com justiça, reduzindo a pressão sobre o bolso de quem já tem menos. A discussão segue, e a sociedade precisa ouvir o ritmo silencioso das necessidades não atendidas se quisermos curar as desigualdades que afetam o bem-estar coletivo.





















