Por Marco Severini — A cartografia diplomática do Oriente Médio marca um novo traço: hoje Teerã encaminha ao Omã uma proposta formal sobre o seu programa nuclear, enquanto Washington e Teerã se preparam para retornar à mesa de negociações na próxima quinta-feira. O movimento, ainda que anunciado, ocorre em meio a incertezas profundas e a um clima interno nos EUA que contém tanto apelos por contenção quanto insistências em demonstrar força.
O diálogo reabre-se como um lance calculado num complexo tabuleiro — um lance que pode redesenhar frentes de influência. O objetivo de um acordo continua a ser ambicioso e longe de garantido; ao mesmo tempo, não se dissipa a hipótese de uma resposta militar americana. No entanto, parte do Estado Maior em Washington expressa reservas significativas sobre a prontidão e os riscos de uma operação.
Fontes do Washington Post e do Wall Street Journal destacam a avaliação do general Dan Caine, presidente dos chefes de estado-maior conjuntos, figura de grande estima junto ao presidente Donald Trump. Numa reunião recente na Casa Branca, Caine teria apresentado uma leitura realista acerca das probabilidades de sucesso e das consequências em caso de ação militar: um conflito prolongado poderia gerar perdas substanciais para as forças americanas e esgotar estoques de munição. Entre os pontos assinalados, a capacidade logística dos EUA aparece pressionada após remessas constantes para aliados — em particular ajuda a Israel e equipamentos vendidos a parceiros que apoiam a Ucrânia — o que reduz a margem de manobra operacional.
Também no núcleo do poder americano surge prudência política. O vice-presidente JD Vance, segundo relatos recolhidos pela Axios, teria manifestado preocupação com a possibilidade de um envolvimento duradouro das tropas americanas, levantando dúvidas sobre a complexidade e os efeitos colaterais de uma ação militar, sem, porém, adotar uma oposição frontal. Paralelamente, o secretário de Estado referido nas fontes, Marco Rubio, mantém posição cautelosa, evitando alinhamentos definitivos a favor ou contra um ataque.
Na agenda pública, o presidente Donald Trump já estabeleceu uma janela temporal — 10 a 15 dias — para que a diplomacia possa produzir resultados. Essa deadline aproxima-se, transformando os encontros vindouros num possível momento decisivo: uma última oportunidade para que a diplomacia evite uma escalada. Os emissários americanos que vão conduzir as negociações são Jared Kushner e Steve Witkoff; do lado iraniano figura o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi.
Ao mesmo tempo, mensagens destinadas ao público iraniano reforçam o clima de incerteza. Relatos citados por Iran International indicam o envio de textos anônimos aos cidadãos no Irã, evocando a expectativa de intervenção — ecos do slogan «Help is on the way», já usado pelo próprio Trump em outras ocasiões.
De acordo com o New York Times, Washington examina um leque de opções, do ataque cirúrgico a medidas de pressão calibrada. Mas, para além das opções militares, o quadro completo revela fraturas e limitações: as reservas de poder americano, embora significativas, mostram-se submetidas a tensões logística-stratégicas que aconselham cautela.
Em termos de estratégia internacional, estamos diante de um momento em que a tectônica de poder exige equilíbrio entre demonstração de força e contenção prudente. O risco é transformar uma manobra de influência numa campanha de desgaste. Se a diplomacia operar como alicerce, ainda há possibilidade de recalibrar as posições; se prevalecerem os impulsos de curto prazo, a região corre o risco de ver redesenhadas fronteiras invisíveis de conflito.
O desfecho dos próximos dias desenhará um novo mapa de possibilidades: será uma jogada de risco no tabuleiro ou o início de um lento e difícil restabelecimento de canais que mantenham a estabilidade relativa na região?






















