Séamus Boland, presidente do CESE, completou seus primeiros cem dias à frente do Comitê Econômico e Social Europeu em 10 de fevereiro de 2026. Numa fase em que as estruturas de poder da Europa são testadas por conflitos e crises simultâneas, a presidência do irlandês traça uma agenda centrada em três eixos: pobreza, segurança e clima. Como analista diplomático acostumado ao tabuleiro de xadrez das relações internacionais, observo nessa orientação um movimento decisivo para reposicionar a voz da sociedade civil no coração das políticas da União Europeia.
Eleito em outubro de 2025, Boland — membro do CESE desde 2011 e líder do grupo das organizações da sociedade civil desde 2020 — dirige o organismo por um mandato de dois anos e meio, até 2028. A sua trajetória pessoal, como agricultor e ativista com mais de quatro décadas de trabalho em prol de jovens, minorias étnicas, pessoas com deficiência e populações rurais isoladas, confere-lhe um capital de credibilidade raro entre os decisores: conhece a geografia social tão bem quanto conhece os corredores institucionais onde se desenham políticas públicas.
No documento que baliza o programa de trabalho para 2026, Boland descreve um cenário internacional marcado por conflitos que redesenham fronteiras políticas e por pressões ambientais que desafiam os alicerces da cooperação. “A guerra voltou a assinalar o continente europeu de forma impensada — e cada instituição da UE tem um papel a desempenhar para se opor a essa agressão, mantendo apoio firme à Ucrânia e ao seu povo”, escreve o presidente. Ao mesmo tempo, assinala a devastação no Médio Oriente e o aumento simultâneo de crises planetárias: as três grandes frentes — mudança climática, perda de biodiversidade e escassez de água — exigem resposta coordenada.
A estratégia anti‑pobreza de Boland ocupa posição central na sua presidência. Ele propõe a criação de um grupo consultivo ligado à presidência do CESE, dedicado a ampliar a participação da sociedade civil nos trabalhos do Comitê e a investigar o papel dos Estados‑membros na erradicação da pobreza. A proposta não se limita a medidas econômicas: reconhece que o crescimento e a criação de empregos são essenciais, mas insuficientes, diante de fenômenos como a pobreza no trabalho, a pobreza infantil, a pobreza intergeracional e a vulnerabilidade da população idosa.
“No meu mandato, priorizarei um programa centrado nas pessoas, onde o Comitê guie a sociedade civil para o centro da União Europeia”, afirma Boland. Trata‑se de um convite para que a EU renove sua arquitetura de inclusão social, colocando atores não estatais em posição de co‑decisão — um movimento que, na linguagem da diplomacia, reforça a legitimidade das instituições por meio de maior participação.
Outra linha estratégica apresentada pelo presidente é a construção de uma “união de segurança” capaz de defender a democracia e proteger o espaço público contra a desinformação. Boland advoga pelo reforço do soft power institucional europeu, pela salvaguarda da independência dos meios de comunicação e por políticas que contraponham narrativas falsas que corroem a coesão social. Em termos geopolíticos, ele sublinha que a segurança não se restringe a fronteiras: exige um empenho externo europeu que sustente a estabilidade regional — com reafirmação explícita de solidariedade ao povo ucraniano.
Ao lê‑lo, percebe‑se que sua abordagem conjuga sensibilidade social e pragmatismo político. É um desenho de ação que procura equilibrar o curto prazo — respostas a crises atuais — com o longo prazo — a construção de resiliência social e ambiental. Em linguagem de tabuleiro, Boland procura movimentar peças que assegurem tanto a defesa imediata quanto a ocupação estratégica de posições que poderão definir a estabilidade do continente nas próximas décadas.
As próximas etapas do seu mandato envolverão a implementação prática das propostas consultivas, o diálogo com governos nacionais e a articulação com outras instituições europeias para transformar diagnósticos em políticas eficazes. Num momento em que as tensões globais e os choques climáticos impõem escolhas difíceis, a presidência de Séamus Boland ao CESE assume um papel de mediação: entre voz civil e poder institucional, entre respostas humanitárias e planejamento estrutural.
Em resumo, os primeiros cem dias demonstram que a sua presidência pretende ser mais do que um exercício retórico: é um esforço coordenado para colocar a pobreza, a segurança democrática e os desafios do clima no centro do projeto europeu, numa tentativa de reforçar os alicerces frágeis da diplomacia interna da UE e de preparar o terreno para avanços reais até 2028.






















