Por Chiara Lombardi — Do palco do Festival de Sanremo ao nosso espelho cultural: numa entrevista descontraída a Fabio Fazio em Che tempo che fa, Carlo Conti confirmou aquilo que já se desconfiava entre bastidores: esta será a sua despedida. «Del doman non v’è certezza», disse, lembrando que depois de cinco edições sente que um ciclo se fecha. «Eu não corro atrás de nada, fiz cinco Festivais, sei que um ciclo termina; desfruto dessa satisfação com grande leveza», afirmou o apresentador.
O anúncio vem acompanhado de gestos simbólicos e de uma programação que mistura reverência e espetáculo. A primeira noite do Festival será explicitamente dedicada a Pippo Baudo, nome que, nas palavras de Conti, «introduziu tantas novidades; se Sanremo é como o conhecemos, é por causa dele». Em claro gesto de homenagem, Conti revelou que colocou uma plaquinha na porta de seu camarim — agora batizado com o nome de Pippo Baudo — uma pequena cena que funciona como memória material do passado do Ariston.
Mas a cerimônia da despedida também prefere o choque de repertório ao silêncio das últimas cenas. A montagem da edição final do “abbronztissimo” — como alguns carinhosamente o chamam — é uma síntese da sua gramática televisiva: ritmo frenético, tempos curtos, uma sucessão de entradas e saídas como cortes de montagem. Serão trinta os artistas em competição — um número generoso, talvez excessivo — e um elenco de coapresentadores que muda a cada serata, confirmando a aposta na acumulação de rostos mais do que na seleção curta e profunda.
Quem aparece nas chamadas? Além de Laura Pausini, presença diária que funciona como um eixo de estabilidade geracional, há nomes pensados para atrair diferentes audiências: Can Yaman (terça), Achille Lauro, Pilar Fogliati e Lillo (quarta), Irina Shayk e Ubaldo Pantani (quinta), Bianca Balti (sexta) e, para a final, Nino Frassica e Giorgia Cardinaletti. O trunfo da surpresa aparece quando Conti convida irônica e afetuosamente Lapo Elkann — ou melhor, a sua encarnação: o comediante transformista Ubaldo Pantani surgirá no palco interpretando Lapo Elkann, prometendo uma incursão de humor e performance no coração do Ariston.
Essa estratégia replica — e amplia — o modelo já visto na edição anterior: muitos cameos curtos, clipes de alto impacto pensados para o circuito TikTok e para a migração rápida de atenção. É uma televisão que busca “segurar” olhares diversos num único evento, costurando a música mais ligada ao mercado (ranking, Spotify) com rostos consolidados para públicos maduros. É, na sua essência, uma televisão generalista que tenta ser também agregadora cultural: um esforço para fazer Sanremo funcionar como um grande palco unificador, onde diferentes gerações se encontram — nem sempre confortavelmente.
Há também um pequeno refrão de ironia histórica: a era das vallette essencialmente mudas ficou para trás — lembram de 2012, quando Ivana Mrazova subiu ao palco e muitos não sabiam quem era? Hoje, a estratégia é o oposto: multiplicar presenças para criar um mosaico de referências, como se o Festival precisasse se assemelhar ao fluxo fragmentado das redes sociais.
Ao fechar este capítulo, Carlo Conti entrega ao público o que se espera de uma última dança: domínio técnico do tempo televisivo, escolhas que conversam com o mercado e gesto de homenagem aos que foram pilares da história do Festival. Se Sanremo é espelho do nosso tempo, esta edição promete ser um reframe — um roteiro oculto que tenta narrar, numa noite após a outra, tanto o legado quanto a mutação do espetáculo.
Resta ver como o público reagirá a esse equilíbrio entre memória e fragmentação: se a cultura de clipe e pulo de atenção aceitará um rito que pede unicidade. No Ariston, a cortina já está quase subindo. E o último ato de Carlo Conti promete ser simultaneamente nostálgico e acelerado — o retrato perfeito de uma televisão que se recusa a fechar os olhos.






















