Por Riccardo Neri — A Meta redesenha seu mapa de prioridades e afasta a obrigatoriedade da integração entre hardware e experiência social imersiva. Após cortes significativos em Reality Labs — incluindo a redução de cerca de 10% da força de trabalho da divisão e o fechamento de três estúdios internos — a empresa liderada por Mark Zuckerberg anunciou a separação clara entre os visores Quest e a plataforma social Horizon Worlds. A decisão, comandada por Samantha Ryan, sinaliza um deslocamento estratégico: tornar Horizon Worlds amplamente acessível via mobile, em vez de permanecer exclusivo aos óculos de realidade virtual.
Em termos pragmáticos de mercado, essa mudança é uma resposta direta ao ecossistema que consagrou o acesso via smartphone: jogos e mundos virtuais como Roblox e Fortnite demonstraram que a escala massiva depende da acessibilidade. A análise interna de Menlo Park mostra que cerca de 86% do tempo gasto nos visores é consumido por aplicações de terceiros, reforçando a opção da Meta por fortalecer o suporte a desenvolvedores externos em vez de manter um ciclo caro de produção proprietária de conteúdo.
Isso não equivale a um abandono total da realidade virtual. O braço de hardware seguirá ativo, com roadmap para novos dispositivos Quest voltados a diferentes segmentos de público — possivelmente com preços mais altos para refletir maturação tecnológica e maior especialização. Contudo, a prioridade operacional mudou: da imposição de uma experiência imersiva obrigatória para um modelo híbrido em que a imersividade é uma opção complementar.
No centro dessa reorientação está a aposta em inteligência artificial como motor de criação e difusão de conteúdo. A visão de Zuckerberg prevê integrar mecanismos generativos diretamente nos feeds sociais, permitindo que ambientes 3D, como Horizon Worlds, gerem conteúdos imediatos e compartilháveis em escala. Em linguagem de infraestrutura digital, trata-se de transformar o metaverso de um «alicerce exclusivo de hardware» em uma camada de serviço — um componente do sistema nervoso das plataformas sociais, cujo valor deriva da conectividade e da capacidade de orquestrar fluxos de dados e conteúdo.
Algumas consequências práticas já são visíveis: a suspensão de novos conteúdos para apps de fitness como Supernatural e o encerramento de um metaverso orientado ao trabalho mostram uma racionalização do portfólio. A estratégia resultante é financeira e operacionalmente mais sustentável, alinhada ao comportamento do consumidor digital contemporâneo, que privilegia mobilidade e baixa barreira de entrada.
Para empresas e gestores de tecnologia na Europa e na Itália, a lição é clara: investimentos em ecossistemas digitais devem priorizar interoperabilidade e modelos de monetização que funcionem fora do perímetro dos dispositivos proprietários. A transição da Meta evidencia que a infraestrutura de software e os padrões de acesso — não apenas o hardware de consumo — ditarão onde se concentrarão as próximas ondas de inovação social e comercial.






















